Recortes Interessantes Sobre as Mídias Físicas Extraídos da What Hi-Fi?

Duas opiniões curiosas que compartilhamos aqui com os amigos do Hi-Fi Planet.

Eu sempre tive bastante respeito pela publicação inglesa What Hi-Fi?.

Trata-se de uma revista que segue um modelo editorial tradicional, com espaço para anunciantes e inserção no mercado comercial de áudio. Isso, por si só, não representa um problema. O que realmente importa é saber até que ponto os interesses comerciais interferem no conteúdo editorial e comprometem a honestidade das informações oferecidas ao leitor.

E é justamente nesse aspecto que a What Hi-Fi? se diferencia de certas publicações que conhecemos, principalmente no Brasil, nas quais a imparcialidade parece ter sido substituída pela conveniência comercial.

Enquanto parte do mercado hi-end se empenha em alimentar fantasias, cultivar o chamado “mistério” do áudio e transformar diferenças supostamente extraordinárias em argumentos de venda, determinados veículos de comunicação parecem mais preocupados em agradar patrocinadores, anunciantes, revendedores e fabricantes do que em respeitar a inteligência de seus leitores.
Nesse ambiente, o consumidor frequentemente deixa de ser tratado como alguém que merece informação confiável e passa a ser visto como um alvo a ser convencido, e, não raramente, explorado comercialmente.

A What Hi-Fi?, ao menos naquilo que observamos em sua linha editorial, procura manter uma postura que lhe confere credibilidade: não precisa inventar “historinhas fantasiosas e dramáticas” para tornar seus conteúdos interessantes, não parte para provocações ou ataques pessoais contra quem questiona os erros e as narrativas estabelecidas e, sobretudo, não parece precisar transformar avaliações de produtos em instrumentos de valorização de seus anunciantes.

Essa distinção é fundamental. Uma publicação especializada não precisa concordar com todas as opiniões, nem está imune a críticas. Mas deve ter compromisso com os fatos, coerência em suas avaliações e independência suficiente para não confundir jornalismo com propaganda.
Trazemos aqui para nossos leitores duas reflexões interessantes publicadas recentemente na What Hi-Fi?. São textos que merecem ser conhecidos não apenas pelo assunto que abordam, mas também pelas questões que levantam e pelas conclusões que cada leitor poderá tirar a partir deles.

É importante que o consumidor tenha acesso a diferentes pontos de vista, questione afirmações e desenvolva seu próprio discernimento. Isso significa não aceitar passivamente o que dizem determinadas publicações, os autoproclamados “gurus de fóruns” ou os personagens que circulam por feiras e eventos nos quais interesses comerciais podem se disfarçar de conhecimento especializado.
No universo do áudio hi-end, desconfiança não é falta de conhecimento. Muitas vezes, é justamente o primeiro passo para adquiri-lo.

É preciso estudar, verificar informações, confrontar afirmações com evidências e compreender os fundamentos técnicos e científicos envolvidos. Num segmento repleto de uma subjetividade oportuna, o que não se pode é aceitar como verdade qualquer discurso revestido de autoridade, especialmente quando ele atende convenientemente aos interesses de quem vende os produtos ou serviços em questão.
Afinal, quantos desses “especialistas” e “formadores de opinião” possuem formação científica ou técnica compatível com os temas sobre os quais se pronunciam? Quantos fundamentam suas afirmações em medições, estudos e conhecimentos verificáveis, em vez de simplesmente reproduzir o que ouviram, leram em textos tendenciosos ou acreditam ter constatado em suas próprias “experiências práticas”?

Experiência pessoal não é prova universal. Convicção não é evidência. E repetir uma afirmação com segurança não a transforma em verdade.

O consumidor merece mais do que histórias convenientes, explicações fantasiosas e certezas sem fundamento. Merece informação séria, argumentos verificáveis e respeito à sua capacidade de pensar por conta própria.

Quando o discurso de um suposto especialista não resiste ao confronto com os fatos, não é a ciência que precisa se justificar. É o especialista que precisa explicar suas afirmações.

Vamos às duas reflexões destacadas para os apreciadores de discos.

Esqueça o renascimento do vinil — estou voltando a me entusiasmar com os CD players

Por Andy Madden
Publicado em  23 de Outubro 2026 na What Hi-Fi?

O tempo dedicado aos testes em 2026 me fez lembrar o quanto senti falta dos modestos reprodutores de discos.

Tenho uma confissão a fazer. Ainda não me deixei levar pela emoção do renascimento do vinil. Na verdade, *falando baixinho*, não acho que algum dia terei um toca-discos.

Por favor, não pense que não aprecio o formato, ou qualquer formato físico, aliás. Adoro poder aproveitar toda a música que o Amazon Music oferece (o motivo pelo qual insisto em continuar com a Amazon fica para outro dia), mas cresci na era das fitas, dos CDs e dos MiniDiscs.

E, quando comecei a trabalhar na What Hi-Fi?, o CD era, como dizer, o formato do momento. Eu gostava, e ainda gosto, do ritual de tirar um CD da caixa e colocá-lo na bandeja de carregamento ou inseri-lo em um mecanismo de carregamento por fenda.

É claro que não é a mesma coisa que retirar cuidadosamente um disco de sua capa e colocá-lo para tocar em um toca-discos. E o ruído seco e o zumbido do mecanismo de um CD não provocam exatamente a mesma sensação acolhedora que os estalos e chiados de um disco de vinil ganhando vida. Mas ambos têm seus méritos.

No início dos anos 2000, eu não teria problema algum em solicitar sete ou oito CD players, todos na mesma faixa de preço, para um Super Test da What Hi-Fi?. Nosso estoque estava repleto deles, e também de trocadores de CDs!

Mas, durante a última década ou algo próximo disso, a fonte praticamente secou. Era possível contar nos dedos de uma mão o número de novos aparelhos acessíveis lançados no mercado. Isso se refletiu no fato de que o Marantz CD6007 e o Cyrus CDi se tornaram vencedores de prêmios por vários anos consecutivos. Não me entendam mal: são excelentes aparelhos, mas a falta de concorrência realmente significativa, sem dúvida, contribuiu para esse resultado.

Mas os tempos estão mudando. Nos últimos dois anos, ouvi o Rotel Michi Q5 (£ 5.499 / US$ 7.499 / AU$ 9.499) e duas verdadeiras feras de alto nível: o Esoteric K-05XD (£ 11.650 / US$ 12.000 / AU$ 15.000) e o Gryphon Audio Ethos (£ 37.500 / US$ 50.500 / AU$ 64.995). Infelizmente, sendo realista, nenhum desses aparelhos deverá ser instalado no meu sistema tão cedo.

Felizmente, também testei o Marantz CD 70 e o Arcam CD25, dois aparelhos excelentes e muito mais acessíveis. E foi o Arcam que realmente me impressionou.

Ao ouvir o salto de desempenho em relação ao excelente Marantz CD 70, com o aumento do refinamento e da sofisticação, além da capacidade do CD25 de extrair detalhes da nossa cópia de The Eminem Show, não consegui conter um sorriso de orelha a orelha. Este é o tipo de aparelho capaz de proporcionar uma melhoria imediata a qualquer sistema compatível e adequadamente configurado.

E há mais boas notícias no universo dos CD players. A NAD anunciou recentemente o C 569 (£ 749 / € 949), que se posiciona convenientemente entre os modelos da Marantz e da Arcam. Há também o Rotel Michi Prestige Q430 (£ 3.599 / € 3.999 / US$ 3.999), que tive a sorte de ouvir na China no início deste ano. Não se preocupem: uma unidade para testes completos deverá chegar em breve para avaliação.

É claro que tudo isso pode ser apenas uma pequena oscilação, um breve renascimento, e não uma tendência de longo prazo. Mas sou totalmente favorável a essa retomada. Não sei quanto a vocês, mas certamente ainda não consigo me imaginar me desfazendo da minha coleção de CDs.

Estou abandonando os serviços de streaming em favor das mídias físicas. Eis o porquê

Por Ioan Hazell
Publicado em 19 de outubro de 2026 na What Hi-Fi?

Quer uma maneira mais acessível de entrar no mundo das mídias físicas? Os CDs podem ser a solução.

Quando o streaming ganhou destaque no universo da reprodução musical, em algum momento do final da minha adolescência, fui completamente conquistado. Qualquer música que eu pudesse desejar estava disponível por uma quantia que, naquela época, eu conseguia reunir com algum esforço a partir do salário do meu emprego de meio período. Para mim, aquilo era algo semelhante ao que o fogo deve ter representado para os neandertais.

Mas, como às vezes acontece com paixões tão arrebatadoras, nosso relacionamento acabou passando por tempos difíceis, a ponto de eu estar considerando abandonar completamente os serviços de streaming de música. Devo esclarecer que isso se aplica apenas ao meu uso pessoal; serviços de streaming como o Tidal desempenham um papel fundamental na maneira como testamos determinados produtos aqui na What Hi-Fi?, sejam eles um sistema hi-fi tudo-em-um ou uma simples caixa de som Bluetooth.

Então, o que me fez chegar ao limite?

Tendo crescido com um suprimento inesgotável de música ao alcance dos meus dedos, essa não é uma decisão insignificante. Mas, recentemente, com a música gerada por inteligência artificial inundando as plataformas de streaming on-line e provocando uma onda de paradas musicais de IA montadas às pressas, além de estratégias para prevenir fraudes, acredito que finalmente cheguei ao meu limite.

Não me entendam mal: fico aliviado ao ver que as plataformas estão tomando providências. Há alguns meses, o Tidal implementou uma opção para permitir conteúdo gerado por IA, e o Deezer também passou recentemente a oferecer aos usuários a opção de excluir de suas bibliotecas qualquer música identificada como gerada por IA. Mas, à medida que essa nova tecnologia invade todos os aspectos da vida, trazendo benefícios e riscos igualmente capazes de nos deixar perplexos, simplesmente não quero ter de questionar se a música que estou ouvindo foi criada por uma pessoa de verdade ou não. Por isso, estou buscando refúgio na música em formato físico.

Mal a ponte levadiça se ergueu, porém, percebi o desafio que tenho pela frente.

Abandonar os serviços de streaming implica um processo de recuperação tedioso, inconveniente e, às vezes, caro. Compreensivelmente, isso costuma ser suficiente para desestimular as pessoas. Existe um termo para esse fenômeno: “dependência de trajetória” (path dependence). Nas ciências sociais, ele significa que acontecimentos ou decisões passadas condicionam ou determinam acontecimentos e decisões posteriores.

No que diz respeito à evolução tecnológica, todos nos tornamos dependentes de diferentes tipos de “trajetórias”. Imagine como teríamos dificuldades hoje se a internet simplesmente deixasse de funcionar de repente, ou mesmo se ficássemos sem eletricidade por um período prolongado. No meu caso específico, fico me perguntando quanto dinheiro terei de gastar para recuperar algo que se aproxime da minha antiga biblioteca musical.

Escolha seu combatente

Assim, enquanto procuro, por falta de uma expressão melhor, voltar ao mundo físico, o primeiro passo é decidir qual formato escolher. É claro que existe um certo apelo em seguir o caminho retrô e adotar inteiramente o vinil. Imagino-me participando do “renascimento do vinil” e sendo acolhido por uma multidão entusiasmada de hipsters estilosos, fumantes de cigarro e apaixonados por discos de vinil. Embora a ideia me agrade, os discos simplesmente são caros demais.

Com preços iniciais que variam entre £ 25 e £ 40 por álbum, quem pretende atualizar regularmente uma coleção de vinis certamente logo se deparará com uma conta impressionante. É muito fácil ignorar o fato de que muitas pessoas simplesmente não têm condições financeiras de voltar às mídias físicas, por mais que apreciem e valorizem os formatos ou os artistas musicais em questão.

Além disso, comprar discos de vinil usados tornou-se uma aposta arriscada. As recentes revelações sobre operações de falsificação em larga escala, incluindo uma que movimentou impressionantes £ 2,7 milhões entre 2017 e 2024, significam que pode ser difícil para os colecionadores ter certeza do que estão comprando.

Mas nem tudo são más notícias

Hoje em dia, o CD é uma mídia física bastante acessível, com ofertas que surgem constantemente em lojas de usados, lojas de discos e varejistas on-line. Numa loja de usados perto da minha casa, frequentemente encontro excelentes CDs à venda por preços a partir de £ 1,99. Por um valor um pouco inferior ao da assinatura mensal do Spotify, eu poderia comprar seis CDs por mês, acredito que isso seria suficiente para me manter entretido.

Além disso, muitas pessoas têm antigos CD players esquecidos e abandonados nos sótãos, o que torna tudo ainda mais barato, pois elimina a necessidade de gastar com novos equipamentos.

Se você estiver procurando uma configuração mais atual, entretanto, alguns fabricantes, como Marantz, NAD, FiiO e Roberts, estão desenvolvendo novos produtos acessíveis voltados para CDs, desde modelos portáteis no estilo dos antigos Discman até componentes separados completos para sistemas de áudio.

Entre os CD players mais acessíveis que recomendamos por menos de £ 500, o Marantz CD70, com cinco estrelas e vencedor de um prêmio, é uma opção sólida para quem deseja integrar um reprodutor de CDs a um sistema hi-fi mais amplo. Custando £ 499 / US$ 750 / AU$ 1.000, ele oferece design moderno e som preciso e potente.

Seu antecessor de uma geração anterior, o CD6007, vencedor de seis prêmios What Hi-Fi?, também continua disponível por um preço menor no momento em que escrevo, custando aproximadamente £ 349 / US$ 650 / AU$ 900. Naturalmente, isso vale apenas enquanto houver unidades em estoque.

Há também opções mais baratas, embora um pouco menos voltadas ao hi-fi. A FiiO, por exemplo, anunciou recentemente um CD player bastante versátil, o DP11, com preço aproximado de £ 200 / US$ 170, que também pode funcionar como DAC e pré-amplificador. Em dezembro de 2025, a empresa lançou ainda um CD player portátil compatível com Bluetooth de alta resolução e que também funciona como DAC, chamado DM15 R2R, com preço de £ 249 / US$ 269.

Por mais fantásticos que alguns desses produtos sejam, compreendo as ressalvas das pessoas.

Este é um sonho difícil de vender

Embora os CDs ofereçam um excelente equilíbrio em termos de qualidade de áudio, eles não possuem a mesma resolução elevada oferecida por alguns serviços de streaming premium. Tampouco é um sacrifício pequeno abrir mão dos milhões de músicas de um serviço de streaming que antes estavam ao alcance dos seus dedos. Certamente haverá uma sensação de abstinência e um período de adaptação. Ainda assim, enquanto os serviços on-line tentam controlar a música gerada por IA, quero experimentar essa alternativa.

Ao escolher as mídias físicas e aceitar os sacrifícios relativamente modestos que acompanham essa opção, sinto uma confiança maior de que a “trajetória” que estou seguindo não será motivo de arrependimento daqui a dez ou vinte anos.

Sem ficar à mercê dos caprichos dos gigantes da tecnologia, pelo menos no que diz respeito a ouvir música, continuarei sendo dono dos meus CDs no futuro, quer eles tenham se tornado relíquias, quer tenham adquirido uma nova relevância.

Talvez o aspecto mais importante de todos, porém, seja que, para cada CD que eu comprar, saberei que um ser humano foi remunerado pelo seu trabalho de expressão artística, cada vez mais necessário. E espero que essa seja uma causa que todos possamos apoiar.

Créditos e Fontes dos textos:

What Hi-Fi?
https://www.whathifi.com/hi-fi/cd-players/forget-the-vinyl-revival-im-getting-excited-about-cd-players-again?
https://www.whathifi.com/hi-fi/cd-players/i-am-ditching-streaming-services-in-favour-of-physical-media-heres-why

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