O Vinil Voltou a Ser um Negócio de US$ 1 Bilhão nos Estados Unidos

Crescimento das vendas mostra que o disco de vinil deixou de ser apenas um produto de nostalgia e passou a ocupar novamente um espaço relevante no mercado fonográfico.

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Ninguém parece ter planejado o retorno do vinil. Não houve uma decisão da indústria ou uma votação dos consumidores. O formato simplesmente voltou a crescer, ano após ano, até alcançar novamente uma marca que parecia improvável há pouco tempo.

Segundo dados da Recording Industry Association of America (RIAA), o mercado norte-americano de discos de vinil ultrapassou US$ 1 bilhão em receita em 2025, algo que não acontecia desde 1978.
Naquele período, Saturday Night Fever dominava as paradas, enquanto o CD ainda nem havia chegado ao mercado. Quase cinco décadas depois, o formato que chegou a ser considerado tecnologicamente ultrapassado não apenas continua existindo como passou a vender significativamente mais unidades do que os CDs nos Estados Unidos.

Os números também ajudam a dimensionar a transformação. Em 2025, foram comercializados aproximadamente 48,5 milhões de discos de vinil, contra 29,5 milhões de CDs.

O fenômeno, portanto, deixou de ser facilmente explicado apenas pela nostalgia de consumidores que viveram a época de ouro dos discos.

Um mercado que continua crescendo

O relatório anual da RIAA referente a 2025 mostra que a receita do vinil nos Estados Unidos cresceu 9,3% em relação ao ano anterior, ultrapassando a marca de US$ 1 bilhão.

Para colocar esse número em perspectiva, há cerca de uma década o formato movimentava aproximadamente US$ 225 milhões por ano no país. Em dez anos, portanto, a receita anual cresceu mais de US$ 800 milhões.

Outro dado relevante é a participação dos Estados Unidos no mercado mundial. O país responde atualmente por quase metade da receita global do vinil, transformando o mercado norte-americano no principal centro comercial do formato.

O crescimento também não se limita às reedições de álbuns antigos. Um dos exemplos mais expressivos está nos lançamentos contemporâneos.

Uma nova geração também compra discos

O argumento de que o crescimento do vinil seria provocado exclusivamente por consumidores mais velhos que desejam recuperar parte de sua juventude não explica todos os dados disponíveis.

Um exemplo é Taylor Swift. Seu álbum The Life of a Showgirl teria ultrapassado 1,6 milhão de cópias em vinil, de acordo com as estimativas citadas nas fontes utilizadas para este levantamento.

O fato de um lançamento contemporâneo de uma das maiores estrelas da música pop mundial alcançar números dessa magnitude é significativo. O vinil não está sendo utilizado apenas para recuperar catálogos antigos: também passou a fazer parte da estratégia de lançamento de artistas contemporâneos.

Sabrina Carpenter e Kendrick Lamar também aparecem entre os nomes de maior destaque nas vendas.

Esse comportamento sugere que existe uma parcela do público, inclusive mais jovem, disposta a comprar música em um suporte físico mesmo tendo acesso praticamente ilimitado a serviços de streaming.

Nesse contexto, o disco passa a ser mais do que simplesmente um meio de armazenar música. A capa, o encarte, a arte gráfica, o próprio disco e o ritual de colocá-lo para tocar fazem parte da experiência.

O mercado digital continua dominante

O crescimento do vinil não significa, entretanto, que o consumo digital esteja perdendo espaço.

Muito pelo contrário.

O mercado fonográfico norte-americano alcançou US$ 11,5 bilhões em receita em 2025, dos quais aproximadamente US$ 9,5 bilhões vieram do streaming.

As assinaturas pagas responderam por US$ 6,4 bilhões, distribuídas entre aproximadamente 106,5 milhões de contas.

O streaming, portanto, permanece de longe como a principal forma de consumo de música.

É justamente essa coexistência que torna o fenômeno do vinil particularmente interessante. Em vez de necessariamente escolher entre streaming e mídia física, muitos consumidores utilizam os dois formatos para finalidades diferentes.

O streaming oferece acesso, conveniência e descoberta de novos artistas. O disco físico, por outro lado, oferece uma experiência deliberadamente mais lenta e material.

O próprio ritual de escolher um álbum, retirá-lo da embalagem, colocá-lo no toca-discos e acompanhar uma sequência de músicas sem a necessidade de interagir com uma tela cria uma experiência diferente daquela proporcionada pelo telefone celular.

O primeiro semestre de 2026 mantém a tendência

Os números mais recentes indicam que o movimento não terminou em 2025.

No primeiro semestre de 2026, a receita obtida com a venda de discos de vinil nos Estados Unidos chegou a aproximadamente US$ 544 milhões, representando crescimento de 17,7% em relação ao mesmo período de 2025.

Em unidades, foram vendidos aproximadamente 26,5 milhões de discos, aumento de 20,9% na comparação anual.

O mercado fonográfico norte-americano como um todo cresceu 6,9% no mesmo período, enquanto a mídia física, considerando diferentes formatos, alcançou US$ 731,5 milhões, alta de 25,9%.

Mesmo nesse cenário, o streaming continua respondendo pela maior parte da receita do mercado, com aproximadamente 82% no primeiro semestre.

Os dados indicam, portanto, que o crescimento do vinil não está acontecendo em um mercado fonográfico em retração. Ele ocorre simultaneamente à expansão do streaming e à recuperação de parte do interesse pela mídia física.

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E os CDs?

Curiosamente, o CD também apresentou crescimento no primeiro semestre de 2026.

A receita proveniente das vendas de CDs aumentou 58,6% na comparação com o mesmo período de 2025.

O resultado é importante porque mostra que o interesse por mídia física não necessariamente se resume ao vinil. Existe também uma demanda por formatos que permitem ao consumidor possuir fisicamente sua música.

Um dos fatores apontados para esse crescimento são os lançamentos de artistas com grandes bases de fãs, especialmente no mercado de K-pop. O álbum ARIRANG, lançado pelo BTS em 2026, por exemplo, teria alcançado 567 mil cópias vendidas em CD, segundo os dados citados pela Luminate.

Isso demonstra que a relação entre artista e consumidor continua podendo gerar demanda por produtos físicos mesmo em uma época dominada pelo streaming.

Nostalgia, coleção ou experiência?

O retorno do vinil pode ser explicado por diferentes fatores, e provavelmente nenhum deles, isoladamente, é suficiente.

Existe, sem dúvida, um componente nostálgico. Muitos consumidores voltaram a comprar discos que já conheciam ou que fizeram parte de sua formação musical.

Mas há também uma dimensão colecionável. Edições especiais, prensagens coloridas, versões comemorativas, capas alternativas e lançamentos limitados transformaram determinados discos em objetos de coleção.

Outro elemento é a experiência de utilização.

Para uma parcela dos consumidores, ouvir um disco é uma atividade deliberada. O processo exige maior participação física do ouvinte e pode incentivar uma escuta menos fragmentada.

Isso ajuda a explicar por que o toca-discos voltou a ocupar espaço em salas de estar, escritórios e sistemas dedicados de áudio.

E a questão da qualidade sonora?

Aqui é necessário separar duas questões que frequentemente são misturadas.

O crescimento comercial do vinil não constitui, por si só, uma comprovação de superioridade sonora sobre formatos digitais.

Um disco de vinil bem produzido, corretamente prensado e reproduzido em um sistema devidamente ajustado pode proporcionar uma experiência sonora extremamente satisfatória. Da mesma forma, uma gravação digital bem produzida pode apresentar excelente qualidade.

A qualidade final depende de diversos fatores: gravação, masterização, prensagem, estado físico do disco, cápsula, braço, ajuste do toca-discos, estágio de phono, amplificação, caixas acústicas e ambiente.

Para o audiófilo, portanto, o interesse pelo vinil não precisa estar necessariamente relacionado à ideia de que o formato é tecnicamente superior a qualquer alternativa digital.

Existe uma diferença entre afirmar que determinado formato possui características sonoras apreciadas por seus usuários e afirmar que ele é objetivamente superior.

Essa distinção é particularmente importante no universo do som high-end, onde frequentemente características subjetivas de reprodução são apresentadas como se fossem conclusões técnicas universais.

O ritual também faz parte da experiência

Existe ainda um aspecto que não pode ser facilmente quantificado em gráficos de vendas: o comportamento do ouvinte.

O streaming tornou possível acessar milhões de músicas instantaneamente. Essa facilidade é uma de suas maiores vantagens, mas também modificou a maneira como muitas pessoas escutam música.

Pular faixas, criar listas intermináveis, alternar entre artistas e ouvir música como atividade secundária tornou-se absolutamente normal.

O vinil impõe uma dinâmica diferente.

É necessário escolher o disco, colocá-lo no toca-discos e iniciar a reprodução. Depois, há uma sequência relativamente definida de faixas e, ao final do lado, é preciso virar o disco.

Para algumas pessoas, essas limitações não são inconvenientes. São justamente parte da experiência.

Um retorno que deixou de ser passageiro

Quando as primeiras evidências da recuperação do vinil apareceram, era razoável imaginar que se tratasse de uma moda passageira ou de um movimento limitado a colecionadores.

Os dados acumulados ao longo de anos indicam algo diferente.

O vinil vem crescendo há 19 anos consecutivos, segundo os dados apresentados no material da RIAA, e alcançou novamente a marca de US$ 1 bilhão em receita anual nos Estados Unidos.

No primeiro semestre de 2026, o ritmo de crescimento ainda se mostrou elevado.

Isso não significa que o vinil esteja substituindo o streaming. Os números mostram justamente o contrário: o consumo digital continua sendo dominante.

O que parece estar acontecendo é uma coexistência entre modelos diferentes de consumo.

O streaming oferece conveniência e acesso praticamente ilimitado. O vinil oferece posse, materialidade, coleção e uma forma diferente de interação com a música.

Talvez seja justamente essa combinação que explique a longevidade do formato.

Considerado morto diversas vezes ao longo das últimas décadas, o disco de vinil não apenas sobreviveu à era digital. Voltou a ocupar uma posição comercial relevante e, pelo menos por enquanto, continua encontrando novos compradores.

Mais do que um simples retorno ao passado, os números sugerem que o vinil encontrou um novo lugar no presente.