Você ouve, o que não ouço…

Você ouve, o que não ouço… Eu ouço, o que você não ouve… Um texto bastante curioso sobre a percepção auditiva.

Jorge Knirsch

A CIÊNCIA REVELA NOVOS ASPECTOS SURPREENDENTES DA NOSSA AUDIÇÃO.

Introdução

Por que bons sistemas de áudio, que apresentam apenas pequenas diferenças mensuráveis nos parâmetros eletroeletrônicos, têm sido subjetivamente avaliados pelo grande público com pareceres tão controversos? Por que o som tem sido avaliado com opiniões tão diferentes e até antagônicas? Por que a discussão em torno do som correto excita tanto os ânimos e provoca embates tão acalorados? Que fatores nos levam a decidir se um som nos agrada ou não? Será que o que gostamos é devido a um costume ou a um hábito?

Através das pesquisas internacionais, grandes têm sido os avanços tanto na parte de avaliação sonora de equipamentos e sistemas, como também na área da percepção humana da audição. Estes dois campos da ciência, embora muito distintos, estão intimamente correlacionados como veremos neste artigo e nos próximos.

Lendo várias revistas internacionais do ramo, tenho me confrontado com diferentes pesquisas e novidades que pretendo apresentar neste artigo. Vamos relatar um pouco destes novos conhecimentos, procurando contribuir com o nosso mercado brasileiro, imobilizado pela sua situação econômica e cada vez mais restrito a um grupo menor de audiófilos e melômanos.

Começando a história lá trás, no século retrasado, em 1863, foi publicado o livro “As Sensações dos Tons em Base Psicológica para a Teoria Musical” de Herman Ludwig Ferdinand Von Helmholtz (1821 a 1894), físico e matemático alemão, nascido em Potsdam, que apresentava um estudo sobre as diferenças da percepção humana com relação aos sons e aos tons musicais. Através deste estudo, o autor levantou a hipótese da provável existência de dois grandes grupos de ouvintes: os sintéticos e os analíticos.

Na época, estas colocações de Helmholtz não levantaram muita discussão, face aos vários aparelhos acústicos que estavam sendo por ele apresentados nesta mesma obra, como o famoso absorvedor que leva hoje seu nome, também chamado absorvedor de volume, grande novidade na época. Mas, a partir do século passado, várias universidades pelo mundo a fora começaram a aprofundar os estudos sobre a percepção humana de sons, iniciados por Helmholtz

Nos porões do Departamento de Neurologia da Universidade de Heidelberg, Alemanha, o Dr. Peter Schneider, da Seção de Biomagnetismo conseguiu mostrar, em conjunto com cientistas das Universidades de Liverpool e de Southampton, na Inglaterra, através de diversos experimentos médicos auditivos e físicos, que realmente os seres humanos escutam de forma muito diferente os mesmos sons e tons. E hoje está comprovado o fato da percepção auditiva humana ser extremamente diferenciada para cada indivíduo.

Estes novos conhecimentos estão levando a uma revisão dos conceitos de avaliação sonora de equipamentos eletrônicos que vamos expor em outra oportunidade.

Os Sintéticos e os Analíticos

As pesquisas do Dr. Peter Schneider vieram confirmar as suspeitas do cientista alemão Herman Von Helmholtz, há mais de um século atrás, de que há realmente dois grandes grupos humanos quanto à percepção auditiva. Ele os designou como os ouvintes das fundamentais e os ouvintes dos harmônicos. Neste artigo, para simplificar, vamos denominar os dois grupos como Helmholtz os definiu originalmente no seu famoso livro, ou seja, o grupo dos ouvintes sintéticos, que sintetizam o som em torno da sua fundamental e o dos ouvintes analíticos, que se orientam em torno de harmônicos do som.

Como as pesquisas mostraram, nenhum destes dois grandes grupos ouve melhor ou pior, um em relação ao outro. Constatou-se que a forma de ouvir também não depende do sexo, raça, profissão, idade ou musicalidade pessoal. Descobriu-se apenas que estes dois grupos simplesmente ouvem de forma diferente um do outro, como veremos adiante.

Todo som é constituído por uma fundamental e seus harmônicos, onde os harmônicos são ondas senoidais em freqüências múltiplas da freqüência da onda senoidal fundamental.

O grupo dos sintéticos ouve e se orienta mais pelas freqüências fundamentais dos sons, enquanto que os analíticos ouvem e se orientam mais pelos harmônicos.

Acreditava-se, até há pouco tempo que, quando um som fosse emitido sem a sua fundamental (por exemplo, a reprodução de um som grave em uma caixa acústica), a audição humana teria a capacidade de reconstituir, durante a própria audição, esta fundamental faltante e, desta forma, escutar o espectro inteiro do referido som. No entanto, os novos testes demonstraram que somente os ouvintes sintéticos têm esta capacidade de reconstituir a fundamental de um som. Os analíticos, como baseiam sua audição nos harmônicos, não reconstituem a fundamental.
Existe uma escala para classificar os indivíduos de cada grupo. Para os sintéticos a escala vai de 0 até -1, sendo que os “sintéticos -1” são os que mais se orientam pela fundamental. Para os analíticos, a escala vai de 0 a +1, sendo que os “analíticos +1” são os que mais se orientam pelos harmônicos de ordem superior. Portanto, sintéticos e analíticos se encontram apenas em 0. É importante frisar que cada pessoa se situa em alguma posição nesta escala de -1 a +1. No meu caso, por exemplo, sou sintético -0,2. As pessoas, embora estejam em diferentes posições na escala, não necessariamente ouvem melhor ou pior, umas em relação às outras, mas simplesmente cada uma ouve de uma maneira específica, diferente das demais. A percepção musical pode ser muito diferenciada. Por exemplo, há pessoas que podem ouvir os mesmos sons até a uma altura de quatro oitavas a mais em relação ao que as outras ouvem!

O gráfico abaixo apresenta a distribuição das pessoas, na escala de -1 a +1, que a universidade de Heidelberg tem levantado. Curiosamente, ele indica que a maioria das pessoas está concentrada nos extremos. Ou seja, grande parte dos sintéticos está entre -1 e -0,5 e grande parte dos analíticos entre +0,5 e +1. Este fato já explica, em parte, porque diferimos tanto na percepção musical dos sons, já que a maior concentração das pessoas está nos extremos da escala.

Estes fatos têm levado a novas descobertas muito interessantes para a avaliação de equipamentos sonoros na mídia internacional. Inicialmente, foram realizados testes de audição nos revisores de audição crítica (RAC) de equipamentos das revistas estrangeiras especializadas e se constatou que os melhores revisores são os que se encontram entre -0,4>RAC>+0,4, ou seja, são as pessoas sintéticas e analíticas que estão situadas mais perto do centro do gráfico. Esta constatação levou a mídia internacional de áudio a sentir a necessidade de realizar testes auditivos nos candidatos a revisores de audição crítica. E a partir dos resultados obtidos é que ela tem feito a escolha das pessoas auditivamente mais apropriadas para RAC, para fazerem parte do corpo editorial das suas revistas.

Mas as descobertas não param por aí! A Universidade de Heidelberg, realizou exames de espintomografia nuclear do cérebro humano, para mostrar a anatomia do córtex direito e esquerdo onde ocorre a percepção musical. Também foram realizados exames de magnetoencefalografia para determinar as correntes elétricas no córtex direito e esquerdo no cérebro. Os resultados obtidos são surpreendentes. Mostram que a massa cinzenta do córtex esquerdo, nos ouvintes sintéticos, é maior do que a do lado direito, enquanto que os ouvintes analíticos possuem o lado direito mais desenvolvido. A corrente elétrica também é maior do lado esquerdo nos sintéticos e, nos analíticos, é maior do lado direito. Inclusive, em músicos profissionais (onde a massa cinzenta total do córtex é maior do que nos não músicos), as proporções do lado esquerdo e direito são semelhantes ao que ocorre nos não músicos, sintéticos e analíticos.

O córtex do lado esquerdo, mais desenvolvido nos sintéticos, é muito sensível a rápidos impulsos de som, principalmente aqueles que não ultrapassem os 50ms de duração. Sons ritmados são uma preferência dos sintéticos, enquanto que pulsos mais longos são uma preferência dos analíticos, cujo córtex direito é mais desenvolvido, como vimos. Portanto, sons mais longos, mais melodiosos são mais bem percebidos pelos analíticos. Não devemos esquecer que a altura dos sons pode variar, ficando em torno da fundamental para os sintéticos e, para os analíticos, podendo ir até a quarta oitava de harmônicos acima da fundamental.

Estas diferenças são marcantes e explicam também a preferência distinta de instrumentos musicais entre os dois grandes grupos. Enquanto os sintéticos dão preferência a instrumentos de percussão, guitarra, piano, e instrumentos de sopro alto como trompete e flauta transversal, os analíticos dão preferência aos instrumentos de cordas, como as violas, aos instrumentos graves de sopro, aos órgãos e ao canto. Mesmo na maneira de tocar instrumentos, foram percebidas diferenças entre os analíticos e os sintéticos. Enquanto os sintéticos valorizam o ritmo da música, os analíticos valorizam a melodia musical.

É interessante notar que, como há uma divisão de preferências de instrumentos entre os dois grupos, podemos identificar suas posições também pela localização dos instrumentos dentro de uma orquestra moderna. Assim, do lado esquerdo da orquestra estão normalmente os instrumentos dos sintéticos, como por exemplo, os instrumentos de percussão, o piano, os altos violinos. Curioso o que as pesquisas também mostraram, que a maioria dos maestros pertence ao grupo dos sintéticos. Do lado direito, o lado dos analíticos, estão instrumentos como o baixo violino, a viola, o violoncelo, o contra-baixo, a tuba, o saxofone, a flauta, o fagote, o oboé, e também o coral. Assim, não é de se estranhar que as principais diferenças estão na faixa de freqüências que vão até 1.500Hz. (O grave vai até 160Hz e o médio até 1.300Hz)

E as descobertas ainda não param por aí. Tem mais!!

Realizou-se uma pesquisa, entre os dois grupos, quanto à preferência de marcas de equipamentos de reprodução eletrônica de música, como caixas acústicas, toca-discos, CD-Players, integrados, receivers, amplificadores de modo geral e se chegou a resultados surpreendentes. Existe, por incrível que pareça, uma correlação biunívoca entre marcas e tipos de equipamentos de áudio e a pontuação entre sintéticos e analíticos. Assim, por exemplo, uma caixa acústica de uma certa marca é preferência dos sintéticos que obtiveram uma pontuação na escala em torno de -0,5. Aprofundando a pesquisa, verificou-se que os projetistas destas mesmas caixas acústicas, daquela determinada marca específica, também pertencem ao mesmo grupo, ou seja, ao grupo dos ouvintes sintéticos -0,5. Outro exemplo, verificou-se que um integrado de uma certa marca, preferido pelos analíticos +0,7, foi projetado por pessoas também pertencentes ao mesmo grupo de ouvintes que contém o grupo consumidor (+0,7). Existem, portanto, marcas de aparelhos sintéticos e analíticos para todas as faixas de ouvintes e para todas as graduações.

O alcance destas descobertas trará uma grande mudança no marketing e no projeto de equipamentos de áudio, cuja extensão ainda não dá para visualizar totalmente hoje.

Conclusão

Apresentamos as últimas descobertas no campo da percepção musical humana, onde encontramos ouvintes sintéticos e analíticos. São dois grandes grupos, que ouvem simplesmente de forma diferente, independente da idade, sexo, cor, etc. Mostramos que, segundo levantamentos estatísticos realizados, a maioria dos sintéticos e dos analíticos se encontra nos extremos de uma escala, por motivos ainda hoje desconhecidos. Dissemos que foi constatada uma correlação entre os instrumentos escolhidos pelos músicos e o grupo a que eles pertencem como ouvintes. Inclusive, foi interessante notar que a divisão do córtex cerebral, nos analíticos e sintéticos, corresponde com a divisão e colocação dos instrumentos em uma orquestra moderna.

Estamos diante de novos conceitos de audição que nos levam a antever mudanças significativas à nossa frente. Com certeza influenciarão nos projetos dos aparelhos e também no marketing das empresas de áudio mundo afora. Por outro lado, as pesquisas não têm parado por aí, estão continuando intensamente. É provável que nossas tendências musicais já sejam pré-programadas geneticamente e estudos neste sentido estão em curso.

Hoje podemos realizar testes e verificar se somos sintéticos ou analíticos. A partir daí, já podemos indicar quais as marcas de equipamentos de áudio que correspondem à preferência de cada um de nós, ou seja, quais as que mais irão nos agradar. Isto, sem dúvida, tem simplificado a escolha e a compra dos aparelhos, tornando-a mais objetiva. A montagem de um sistema de áudio com este processo fica muito facilitada. Pergunto: que tipo de ouvinte você é?

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