O som não nasce da percepção. Nasce de um fenômeno físico.

O funcionamento de um alto-falante começa com um princípio muito antigo e fundamental da engenharia: a conversão de energia.
Um alto-falante é um transdutor. Sua função é transformar energia elétrica em movimento mecânico e, posteriormente, esse movimento em energia acústica.
Independentemente da tecnologia empregada, seja um cone dinâmico tradicional, uma fita de alumínio, uma membrana eletrostática ou um painel planar, os mecanismos utilizados podem ser diferentes, mas todos precisam obedecer às mesmas leis fundamentais da física.
Existe, portanto, uma cadeia de acontecimentos: sinal elétrico > força ou movimento > deslocamento do diafragma > variação da pressão do ar > som.
No alto-falante dinâmico convencional, por exemplo, uma corrente elétrica contendo variações que representam o sinal sonoro percorre a bobina posicionada no campo magnético do ímã. A interação entre o campo magnético e a corrente produz uma força que movimenta a bobina e, consequentemente, o diafragma. Esse movimento varia conforme as variações do sinal elétrico.
O diafragma desloca o ar à sua frente e atrás de si, produzindo regiões alternadas de compressão e rarefação. Essas variações de pressão se propagam pelo ambiente na forma de ondas acústicas que chegam aos nossos ouvidos (por isso o som não se propaga no vácuo).

Não existe uma etapa misteriosa nesse processo. Existe uma cadeia de causa e efeito.
O movimento do cone acontecerá na frequência e na intensidade do sinal aplicado nos terminais da bobina.
O som muda quando a corrente muda
O sinal elétrico aplicado ao transdutor produz uma resposta física (magnética). Essa resposta produz movimento. O movimento produz pressão acústica. E a pressão acústica produz a experiência auditiva.
Portanto, quando percebemos uma diferença sonora, existe necessariamente uma alteração correspondente em algum ponto dessa cadeia.
Cada movimento do alto-falante corresponde a uma mudança no sinal.
É exatamente aí que a medição se torna fundamental.
Se a bobina do alto-falante consegue reagir a essas variações, instrumentos de medição modernos conseguem detectar e quantificar estas variações extremamente pequenas em grandezas elétricas, mecânicas e acústicas.
Isso não significa que tudo aquilo que percebemos seja simples ou trivial de medir. A audição humana é complexa, e determinados fenômenos exigem métodos de medição adequados. Não se pode colocar um simples multímetro nos terminais da bobina e querer encontrar uma diferença. Existem equipamentos apropriados para esta análise, todos capazes de identificar qualquer alteração no sinal elétrico, seja através de um valor ou através de uma imagem.
Mas, neste caso específico, o som vai mudar conforme muda o sinal elétrico na bobina do alto-falante. Ou seja, se trocarmos um cabo, instalarmos um fusível “audiófilo” ou outro acessório, poderemos medir e até ver na tela de um instrumento o que aconteceu com a corrente. Se nada aconteceu, nada mudará no comportamento do cone e nenhuma mudança será percebida no som. Óbvio demais, não?
Quando alguém diz que os agudos ficaram mais “evidentes”, tem que haver uma mudança no sinal que reforce a percepção das altas frequências.
Quando diz que os graves ganharam extensão, o sinal elétrico deve mostrar isso, afinal, até a intensidade da corrente muda para empurrar mais graves num alto-falante.
Perceba que o alto-falante só vai criar um “novo som” mediante a aplicação de um sinal diferente. O cone do alto-falante não se move com a expectativa, com o dourado do conector do plugue de força ou com a vontade do ouvinte de sentir algo. Ele se move com a mudança no campo magnético que empurra o seu cone.
Óbvio que a intenção deste artigo é mostrar como é fácil acabar com fantasias em relação às mudanças que alguns acessórios provocam, mostrando como o som é produzido a partir de um sinal elétrico.
Não estamos considerando mudanças das condições acústicas da sala e outros fatores. O que queremos provar aqui é que: se houve uma sensação de mudança com a inclusão de um acessório ou equipamento, e nada mais foi mudado, o sinal também precisa ter mudado.
O automóvel como exemplo
Uma maneira simples de compreender essa questão e acabar com os exageros do subjetivismo é observar um fenômeno completamente diferente: o desempenho de arrancada de um automóvel.
Imaginemos dois carros. Um deles produz uma aceleração inicial extremamente forte. Ao pisar no acelerador, o motorista sente o corpo ser pressionado contra o banco. A sensação é impressionante.
O outro apresenta uma aceleração rápida e mais progressiva, sem produzir aquele mesmo “soco” inicial.
Seria possível afirmar, apenas pela sensação, que o primeiro é necessariamente mais rápido? Não.
Podemos estabelecer um parâmetro objetivo: o tempo necessário para sair da imobilidade e atingir 100 km/h.
Se um carro chega aos 100 km/h em 7 segundos e o outro em 8 segundos, existe uma resposta objetiva para a pergunta sobre qual foi mais rápido nesse teste. Nenhuma impressão muda isso.
O subjetivismo não altera o fato.
O motorista pode preferir a sensação do primeiro carro. Pode achar sua arrancada mais emocionante. Pode dizer que determinado carro “parece” mais forte. Tudo isso é válido como percepção pessoal. Mas nenhuma dessas percepções altera o cronômetro. Você pode medir e provar que o fato é diferente da percepção.
O mesmo princípio pode ser aplicado ao áudio. Você pode achar o que quiser, mas a medição vai mostrar se o fenômeno percebido se sustenta na prática.
Imagine agora dois sistemas de áudio. Um deles apresenta uma determinada característica que produz a sensação de maior impacto, brilho ou presença. O outro apresenta uma resposta diferente, mas talvez mais linear. Um ouvinte pode preferir o primeiro. Outro pode preferir o segundo. Isso não é um problema.
Preferência é subjetiva.
O problema começa quando a preferência é transformada em uma afirmação sobre desempenho físico sem que exista uma diferença física demonstrável que sustente essa afirmação.
No automóvel, ninguém precisa acreditar que um carro é mais rápido. Mede-se.
No áudio, deveríamos adotar exatamente a mesma postura.
Se determinado equipamento produz uma diferença audível, devemos procurar a diferença física correspondente e, aqui, no caso, no sinal que chega ao alto-falante.
Isso não significa que medições determinem o que o ouvinte prefere. Não é esse o ponto aqui. Muito pelo contrário.
É justamente para o ouvido que um sistema de áudio existe.
O objetivo final de um sistema de reprodução é produzir uma experiência auditiva. Portanto, ouvir é indispensável.
O que precisa ser evitado é confundir duas coisas diferentes: “Eu ouvi uma diferença” e “Eu sei qual fenômeno físico produziu essa diferença”
A primeira é uma experiência pessoal. A segunda é uma afirmação técnica que exige investigação, e ela existe, e essa distinção é fundamental.
A percepção pode ser subjetiva. O fenômeno que produz o som, não.
Existe uma distinção importante que muitas vezes se perde nas discussões sobre áudio: uma medição não precisa determinar aquilo que uma pessoa deve gostar.
Se alguém prefere o som de determinado amplificador, alto-falante ou cabo, essa preferência é legítima. Da mesma forma, alguém pode considerar um sistema mais agradável, mais envolvente ou mais emocionante do que outro.
A ciência não precisa, nem deve, tentar transformar essas preferências em números. O papel da medição é outro: identificar e quantificar os fenômenos físicos envolvidos na reprodução sonora. E veja como isso é tão simples quando olhamos para a forma como o alto-falante funciona.
Quando afirmamos que determinado equipamento possui maior transparência, maior velocidade, melhor controle, maior microdinâmica, menor distorção ou reproduz mais informação, estamos deixando o campo da simples preferência e fazendo uma afirmação sobre o comportamento físico do equipamento.
E afirmações físicas podem ser investigadas e comprovadas. O alto-falante não vai se movimentar de forma diferente com o mesmo sinal na sua entrada se nada mais for alterado.
Portanto, não existe uma guerra entre ouvir e medir. Ouvir nos diz o que experimentamos. Medir nos ajuda a descobrir o que aconteceu fisicamente para que essa experiência ocorresse e se a mudança realmente ocorreu.
No áudio, você pode discutir o que ouviu. Mas não pode negociar com a física que produziu o som.
O problema surge quando a percepção é utilizada como substituta da explicação física, especialmente quando uma afirmação objetiva é feita sem que exista qualquer evidência objetiva capaz de sustentá-la, quando a subjetividade passa a ser utilizada como argumento.
É nesse ponto que determinados discursos do universo hi-end se tornam problemáticos.
Quando uma diferença é afirmada, mas não consegue ser demonstrada por medições adequadas, uma resposta frequente é simplesmente atribuir o resultado à subjetividade, e lá vem a velha e frágil alegação de que “Medições não mostram tudo.”
Se existe uma diferença física suficientemente grande para produzir uma diferença sonora consistente, em princípio deve existir algum fenômeno físico correspondente a ela.
Se o som mudou, o alto-falante se moveu de forma diferente e isso aconteceu porque o sinal elétrico mudou.
Muitos avaliadores de equipamentos e acessórios fogem de testes objetivos por diversas razões:
– Acesso limitado a equipamentos de análise e medição de alta precisão;
– Preço desses equipamentos;
– Falta de capacitação técnica para este tipo de análise;
– Falta de conhecimento do que medir;
– Falta de conhecimento de como medir;
– Pressões comerciais para atender aos interesses de anunciantes e patrocinadores de suas publicações.

Mas é preciso entender que o som decorre de um fenômeno físico provocado por uma corrente elétrica. É importante que essa verdade seja estabelecida, e que se pare com essa coisa de que medições não contam tudo. Contam, sim, com precisão, apenas não dizem o que agrada mais ou menos, isso é com o ouvinte.
Mas, quando se afirma que houve uma diferença sonora com a troca de um componente, é preciso entender que isso pode ser confirmado.
Não precisamos ir lá no DAC medir jitter, não precisamos medir distorção na saída do pré, nada disso. Tudo o que acontecer pelo caminho vai mudar aquele sinal que está entrando no alto-falante que, por sua vez só vai reagir diferente se o sinal for diferente o suficiente para mudar o campo magnético da bobina.
Minha experiência pessoal
Vou resumir aqui a minha experiência pessoal sobre esse assunto.
Por conta da minha formação técnica, da disponibilidade de equipamentos de alta precisão para medições de sala, parâmetros acústicos, elétricos etc. e, obviamente, da minha experiência de muitas décadas como usuário de equipamentos de áudio, posso afirmar que nunca encontrei uma mudança de percepção durante um teste que não pudesse ser investigada e confirmada por meio de medições objetivas.
Ao longo dos anos, levantei curvas de resposta de frequência, gráficos do comportamento das ondas sonoras diante das caixas acústicas e da sala como um todo, além de inúmeras outras medições. E, invariavelmente, aquilo que percebi subjetivamente encontrou uma correspondente explicação física nas medições.
Antes que os críticos da ciência e os defensores da subjetividade (pelas suas diversas razões) se exaltem e digam que o sinal elétrico pode não mudar, o alto-falante pode ter o mesmo comportamento, e o som pode ser diferente por conta da acústica da sala ou outro fator externo, lembre-se: estamos falando da influência de um componente no som criado pelo alto-falante, sem outras alterações externas.
E como isso é tão simples e descomplicado.
Quer justificar o alto valor que gastou num cabo novo? Quer convencer um leitor a fazer um upgrade para um cabo novo, para o seu anunciante ficar feliz e continuar comprando espaço na sua revista? Quer tentar convencer alguém de que você tem ouvidos “especiais”? Sem problemas. Mas não minta.
Não saia dizendo por aí que não se pode medir o que provoca uma mudança no som. Porque som é um efeito físico, produzido por um sinal elétrico amplificado e capaz de fazer um transdutor movimentar o ar proporcionalmente para criar os sons.
O som não acontece porque acreditamos nele. Acontece porque a física permite que ele aconteça.
