Mentiras do Mundo do Áudio 4 – O Milagre Dos Cabos De Força

Mais um artigo da nossa série que busca desfazer mentiras que por muito tempo foram ditas no universo do Áudio Hi-End.

Cabo som hi end audiofilo

O Mito dos Cabos de Força em Sistemas High-End: Ciência ou Ilusão?

No universo da audiofilia high-end, poucos debates são tão inflamados quanto a influência dos cabos de força na qualidade sonora.
Entusiastas frequentemente defendem que cabos topo de linha trazem melhorias no detalhamento, na dinâmica, na espacialidade, no palco sonoro e até na naturalidade das vozes e instrumentos. Mas existe uma pergunta que raramente aparece nessas discussões:


Qual é exatamente o mecanismo elétrico que faria um cabo de força corretamente dimensionado produzir essas diferenças sonoras?


A questão não é saber se alguém afirma ouvir diferenças. Pessoas podem perceber diferenças de maneira absolutamente sincera. A questão é outra: essas diferenças podem ser medidas, reproduzidas e identificadas quando a identidade do cabo é ocultada?
É aí que a discussão deixa o campo das impressões pessoais e entra no campo da engenharia e da experimentação.

A Realidade Técnica da Fonte de Alimentação

Para compreender o problema, é preciso olhar para dentro do equipamento.
Um aparelho de áudio não recebe diretamente da rede elétrica aquilo que será utilizado pelos seus circuitos. A corrente alternada da tomada passa por uma fonte de alimentação que normalmente envolve transformadores, retificadores, capacitores de filtragem e circuitos de regulação, dependendo do projeto.
Essa cadeia tem justamente a função de transformar a energia recebida da rede em tensões adequadas e estáveis para os circuitos internos.

Portanto, quando alguém afirma que a substituição do último metro do cabo de força provocou uma alteração sonora, surge uma pergunta inevitável: qual alteração elétrica ocorreu na entrada do equipamento e de que maneira ela atravessou a fonte de alimentação até chegar ao circuito de áudio?
Seria como recebermos a água da companhia de água pública e usarmos um filtro em casa para eliminarmos as impurezas ou o gosto de cloro, colocando no copo ou nos alimentos água limpa, mas, ao mesmo tempo, dizer que o último metro de tubo de PVC mudou a água, desculpem o trocadilho, da água para o vinho.
Bom para o vendedor de cano que vai vender esse um metro de plástico bem caro, com argumentos os mais bizarros possíveis.

Não basta dizer que “o cabo entrega mais energia”, “a música fica mais dinâmica” ou “o palco se abre”. É preciso explicar como isso acontece.

Indutância, Resistência e Capacitância

Todo condutor possui características elétricas próprias. Cabos apresentam resistência, indutância e capacitância. Isso é física básica.
A questão não é saber se essas propriedades existem, mas se as diferenças entre dois cabos corretamente dimensionados são suficientemente grandes, dentro das condições normais de funcionamento de um equipamento de áudio, para provocar uma alteração relevante em sua alimentação.
Um cabo comum de boa qualidade, corretamente dimensionado para a corrente exigida pelo equipamento, apresenta resistência suficientemente baixa para cumprir adequadamente sua função, com as demais características elétricas longe de provocar qualquer alteração na energia de alimentação. Isso é provado, medido e visto em telas de instrumentos nada esotéricos.

Portanto, a pergunta relevante não é se existem diferenças elétricas entre cabos, mas se elas são grandes o suficiente para produzir uma consequência audível.

Do Cabo ao Som

Podemos simplificar a cadeia: cabo ? alimentação do equipamento ? circuito eletrônico ? sinal de áudio ? transdutor ? ouvido.

Para que um cabo de força produza uma alteração sonora consistente, seria necessário que alguma diferença elétrica relevante sobrevivesse a toda essa cadeia. Se a diferença for pequena demais para alterar significativamente a alimentação, não existe razão técnica para esperar uma transformação dramática no som.
E se alguém afirma ouvir uma diferença grande, maior dinâmica, maior detalhamento, graves mais precisos, palco sonoro mais profundo ou maior naturalidade, então essa diferença deveria poder ser investigada e ter a sua existência comprovada.

Onde está a medição?

Evidências Documentadas e Testes Cegos

Um exemplo particularmente interessante foi o teste ABX realizado em novembro de 2004 pela Secrets of Home Theater and High Fidelity, em parceria com a Bay Area Audiophile Society.
Nesse experimento, ouvintes foram desafiados a diferenciar cabos de força comuns de cabos high-end. Entre os cabos utilizados estavam modelos de alto custo, incluindo cabos da Nordost, e os participantes tiveram a oportunidade de ouvir as diferenças alegadas em uma cadeia de equipamentos de áudio.

Foram registradas 149 respostas, das quais 73 estavam corretas, aproximadamente 49% de acerto. Ou seja, o resultado ficou praticamente no nível esperado pelo acaso.

É importante fazer uma ressalva: esse teste não prova que seja fisicamente impossível existir qualquer diferença entre cabos de força. O que demonstra é algo mais específico: nas condições daquele experimento, os participantes não conseguiram identificar os cabos de maneira estatisticamente significativa.
Uma diferença sonora realmente consistente não precisa ser identificada em 100% das tentativas. Mas, se for suficientemente grande e reproduzível para ser descrita como “óbvia”, “inconfundível” ou “dramática”, seria razoável esperar que aparecesse quando a identidade do cabo é ocultada.

É justamente para isso que servem os testes cegos.

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“Mas Teve Gente que Acertou!”

Sim, e isso não representa um problema para a estatística.
Em qualquer sequência de tentativas, algumas pessoas podem acertar várias respostas simplesmente por acaso.

Imagine uma loteria. Uma pessoa pode acertar uma combinação extremamente improvável. Isso não significa que ela possua um “dom” para prever os números sorteados.
Da mesma forma, a pergunta importante não é: “Alguém acertou?”, e sim: “A taxa de acertos ficou acima do que seria esperado pelo acaso de maneira estatisticamente significativa?”

Essa é a diferença entre uma impressão e uma evidência.

O Que Dizem os Criadores Destes Produtos?

Como reforço dessa discussão, tive certa vez uma conversa com um amigo engenheiro de uma empresa fabricante de cabos “audiófilos” e lhe perguntei sobre essas supostas diferenças.
Ele riu e revelou que o mercado audiófilo é altamente influenciável por estímulos psicológicos. Admitiu que a percepção de mudança pode depender da sugestão, de uma aparência diferente ou de um caráter premium da peça, e não necessariamente de alterações físicas relevantes que promovam algum resultado de fato.
Vejam que é um fabricante de cabos que diz isso, não o dono da empresa, mas o engenheiro que desenvolve o produto.
Ele citou, inclusive, os jumpers de ligação das caixas como outro exemplo, que trataremos em outra oportunidade.

Perguntei-lhe se cabos caros trariam vantagens reais, e ele me respondeu que sim: “na conta bancária do Patrão.”
A frase foi uma brincadeira, mas existe uma questão séria por trás dela.
Quando um produto custa dezenas ou centenas de vezes mais que outro, o consumidor naturalmente espera alguma coisa em troca. E quanto maior a expectativa, maior pode ser a influência psicológica sobre a percepção.

Verificações Instrumentais

Além dos testes de escuta, existem as medições técnicas.
Osciloscópios, analisadores de espectro, multímetros e muitos outros instrumentos permitem verificar características elétricas do sistema e procurar alterações provocadas pela substituição do cabo. É para isso que eles servem e em qualquer segmento tecnológico, não só no áudio.

Mas, mesmo uma alteração elétrica, se comprovada, não é automaticamente uma alteração audível. É necessário demonstrar uma alteração relevante e estabelecer uma relação entre ela e uma diferença sonora consistente.
Não basta encontrar uma diferença microscópica em uma medição e transformá-la imediatamente em uma explicação para mudanças como “maior palco”, “mais musicalidade” ou “maior emoção”.
A engenharia exige uma cadeia causal.

Comparação com Outras Tecnologias

Tecnologias muito mais complexas, como equipamentos hospitalares, computadores, equipamentos de imagem e sistemas de telecomunicações, entre muitos outros que processam dados e sinais com frequências e precisão muito superiores às do áudio, funcionam com cabos de alimentação convencionais adequadamente dimensionados.
Trocar um cabo de computador de 10 reais por outro de 1.000 reais não vai deixar o computador mais rápido ou preciso.

Se o cabo estiver defeituoso, subdimensionado ou apresentar mau contato, obviamente a situação será diferente. Mas isso é uma deficiência do cabo antigo, e não uma propriedade mágica do novo.

Infraestrutura de Distribuição

Antes de chegar à tomada, a eletricidade percorre quilômetros de cabos, frequentemente feitos de ligas de alumínio, expostas ao sol e à chuva. Ela passa por inúmeros transformadores nos postes, chaves seccionadoras e emendas que, apesar de críticas, são projetadas para suportar a carga.
Tudo isso mostra que a qualidade da alimentação elétrica não começa no último metro.

Mas esse fato, isoladamente, não prova que um cabo de força não possa produzir qualquer diferença. A questão decisiva continua sendo saber qual diferença elétrica relevante esse último metro introduziria no sistema.

Experiência Pessoal

Ao longo da construção da minha sala de som e das melhorias realizadas em muitas décadas, pude fazer inúmeras medições, já que, além de audiófilo, possuo extensa formação técnica no assunto e disponho de muitos instrumentos de análise e medição que muitos laboratórios especializados não possuem.

Observei que, por mais que eu trocasse os cabos de força, as características da energia que entrava no cabo e saía dele não sofriam alterações relevantes. Veja bem a diferença: Não é que eu não conseguisse identificar estas diferenças, elas não existiam de fato. Simples assim.
Voltando à comparação da água que chega em nossas torneiras, ela passou por quilômetros de tubulação pela cidade, depois percorreu dezenas de metros em tubos de PVC pela nossa casa, mas, no último metro de tubo, eu o troquei por um pedaço de PVC com 99,99999% de pureza. Se eu analisar a qualidade da água que entrou nesse um metro de tubo e a água que saiu, vou descobrir que o cloro reduziu? que as bactérias desapareceram? que as partículas suspensas na água foram transformadas em oxigênio ou algo assim? e vou perceber uma diferença no sabor da água, ou melhor, ela vai ficar mais pura?

Essas medições técnicas que realizei foram feitas com instrumentos profissionais de alta precisão, utilizados em análises de equipamentos muito mais críticos que os de áudio, alguns específicos para áudio e importados da Suécia. Eram o que havia de melhor no mercado, e sempre comprei os mais atualizados.

Nos testes cegos que fiz com amigos, também ficou demonstrado que não havia nenhuma conexão consistente entre a troca do cabo e uma melhoria de desempenho. Os resultados foram, inclusive, bastante contraditórios.

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A Experiência da Palestra

Já comentei aqui sobre outra experiência que eu e alguns amigos vivemos em uma palestra sobre percepção sonora de que participamos há alguns anos.
O “experiente” palestrante, ao reproduzir um CD, chegou a chamar os participantes do evento de surdos por não ouvirem as “evidentes diferenças sonoras” entre um simples cabo de força de computador e um caríssimo cabo hi-end, exótico, de grife famosa e que ele, indiretamente, também promovia comercialmente.

Ele fez tantas trocas para convencer os presentes que, ao final, quase aos gritos e bastante irritado, reforçou que era impossível que alguém não percebesse que a cantora (Diane Schuur) parecia “mais jovem”, com uma voz mais natural, com o caríssimo cabo hi-end “audiófilo” que estava sendo usado. A sensação, segundo ele, naquele momento, era bastante clara e evidente.
Porém, ele não havia percebido que, depois de tantas trocas, o cabo que permanecia instalado era justamente o cabinho barato de computador que ele dizia restringir os agudos, comprimir o sinal e deixar a cantora parecendo uma velha, e que agora ele dizia o contrário.

Isso revelou algo muito mais interessante do que simplesmente descobrir qual cabo estava instalado. Revelou como uma expectativa pode influenciar aquilo que acreditamos estar ouvindo.
Ele e alguns poucos participantes da palestra não perceberam as diferenças que afirmavam serem tão evidentes. Chegaram a acreditar nos benefícios que o cabinho “barato” apresentava, imaginando que o cabo “audiófilo” estava instalado. Eu e meus amigos percebemos isso e ficamos indignados com o acontecimento.

De forma bastante sutil e educada, sem querer criar polêmica, conversei com o palestrante ao final da palestra e sugeri realizarmos um evento às cegas para avaliação de cabos. Óbvio que ele recusou, dizendo que estava sem tempo.

O que tudo isso provou? Deixo a conclusão para o leitor.

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A Diferença Pode Existir?

Sim, pode!
Apesar de eu afirmar que cabos de força corretamente dimensionados não apresentam diferenças audíveis relevantes em condições normais, concordo que, em situações específicas, um usuário pode perceber uma diferença ao trocar um cabo.

Isso não é necessariamente uma contradição. Pode existir uma deficiência no cabo antigo.
Fios soltos dentro dos conectores, contatos oxidados, conexões frouxas ou outros problemas que podem provocar mau contato e, obviamente, prejudicar o funcionamento.

Se um cabo antigo apresenta uma deficiência, substituí-lo por outro em boas condições pode produzir uma diferença perfeitamente real. Mas isso não significa que o novo cabo seja “melhor” por possuir uma geometria exótica, um material especial ou uma construção audiófila. Significa simplesmente que o cabo antigo apresentava um problema.

Reaperte as conexões e faça uma limpeza dos contatos do cabo antigo, e a diferença entre eles poderá desaparecer, como frequentemente ocorre também com outros cabos de conexão.

Por isso, sempre recomendo a manutenção dos contatos. Antes de gastar dinheiro em um suposto upgrade, verifique se existe realmente alguma deficiência no componente que você já possui e se ela pode ser superada, até com uma simples limpeza.

Para exemplificar melhor isso, imagine que você nunca faça a calibração de pressão dos pneus do seu carro, e eles estejam bem murchos, com baixíssima pressão por conta da perda natural do ar que vinha ocorrendo. Você decide então trocar os pneus, e o instalador calibra os novos pneus após instalá-los, como manda a boa prática. Ao rodar com o carro você pode até dizer: “Percebi que o carro ficou mais firme, não está puxando mais, a estabilidade melhorou”. Isso pode te levar à conclusão equivocada de que os pneus atuais são melhores, que foi um ótimo upgrade, mas na verdade você apenas comparou componentes corretamente calibrados com outros que não recebiam a manutenção adequada. Imagine agora alguém lhe vender esses pneus por 100 vezes o preço dos que estavam instalados antes porque você é um “automófilo” exigente e com dinheiro sobrando.

A Armadilha do Upgrade

Sem esses cuidados preliminares, acabamos caindo na mentira do “upgrade”, achando que houve uma melhora na troca do cabo antigo pelo “superpoderoso e fantástico lançamento mais novo do mercado”, que quase fez um avaliador “cair de costas”, que provocou um “salto quântico” no desempenho do sistema, fazendo o ouvinte perceber até o perfume que a cantora estava usando, já que ela se “materializou” na sua sala.

O curioso é que o mesmo avaliador pode falhar miseravelmente com o mesmo comparativo quando não sabe qual cabo está tocando.
Se a diferença desaparece quando a informação sobre o produto é retirada, precisamos considerar seriamente a possibilidade de ela esteja sendo produzida pela expectativa.

“Eu Não Concordo”

Quantas vezes eu já escutei isso? Perdi as contas.

Quantas vezes já conheci casos de audiófilos que insistiam que percebiam diferenças nítidas entre cabos e diziam que eu estava errado em minha opinião. Essa convicção, muitas vezes, acabava nos testes cegos que fazíamos quando eles aceitavam participar (a maioria foge destes testes).

Nesses testes eu cheguei a me posicionar atrás de um rack com os equipamentos de som e simular trocas de cabos, enquanto amigos insistiam em notar a diferença entre o cabo antigo e o novo, quando, na realidade, eu mantive o cabo velho o tempo todo.
Quando coloquei o novo dizendo que ainda era o velho, sem anunciar isso, todos disseram não perceber qualquer diferença.
Quando coloquei de volta o velho anunciando que era o novo, todos perceberam um “salto de qualidade”, com mudanças no palco sonoro, maior precisão nas baixas frequências e outras características ainda mais bizarras.

É por essa razão que defendo tanto as medições e os testes cegos.
A subjetividade, que chamo de avaliação de “orelhada”, pode nos levar a conclusões que não resistem quando a informação sobre o produto é retirada.
Isso vale inclusive para os “experientes e especialistas” que fazem avaliações de cabos e se colocam como possuidores de “ouvidos especiais”, mesmo quando a idade já consumiu boa parte de sua capacidade auditiva e eles insistem que é desnecessário ajustar o sistema para estes desvios naturais.

A “Estupidez” dos Fabricantes

Já vi avaliações bastante tendenciosas, como, aliás, são muitas delas, nas quais se dizia que a troca do cabo elevou o desempenho de um amplificador, tirando-o de uma categoria inferior e colocando-o no topo da classificação de uma metodologia ainda mais suspeita e subjetiva.
Curiosamente, algumas páginas, recheadas de elogios e adjetivos exagerados e cheias de contradições, não explicavam por que o fabricante do amplificador, com sua tecnologia avançada, componentes de altíssima qualidade e projeto cuidadoso e sem “limites de custo”, como foi dito, teria incluído um cabo de força medíocre capaz de limitar catastroficamente o desempenho de um equipamento excepcional.

Pensemos nisso por alguns segundos.
O fabricante investiu milhões em pesquisa, engenharia, desenvolvimento, componentes, transformadores, capacitores, circuitos e construção mecânica, mas teria esquecido justamente o último metro de cabo?
Que mancada, hein?

O pobre e ingênuo engenheiro talvez não tivesse toda a experiência técnica que o avaliador tinha. Ou talvez os ouvidos dos engenheiros envolvidos no projeto não funcionassem direito.
A ironia praticamente se escreve sozinha.

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Os “Fusíveis Audiófilos”

Isso me lembra os “fusíveis audiófilos”.
Essa nomenclatura diferenciada só existe na audiofilia, pois são componentes convencionais como qualquer outro, sem nenhum elemento de característica sonora.
O fabricante vende um amplificador de 200 mil reais, mas não gasta 300 reais em um fusível esotérico de grife para fazer o seu equipamento chegar ao topo das avaliações com o desempenho “fantástico” que ele vai ganhar com um fusível “audiófilo”.

Se um simples fusível pode alterar de maneira tão significativa o desempenho de um equipamento, seria razoável esperar que os próprios fabricantes levassem isso em consideração durante o desenvolvimento do produto, afinal, seria um investimento muito baixo para supostamente elevar substancialmente o nível de seu equipamento num mercado lotado de… concorrentes. Pois é. O consumidor não pagaria isso depois de ver o equipamento destacado pela sua elevada qualidade no mercado?

Veja que as conclusões chegam naturalmente.

Se o Cabo é Tão Importante…

Se os cabos de força fossem realmente cruciais para o desempenho sonoro dos aparelhos high-end, seria razoável perguntar por que os próprios fabricantes não incorporariam essa característica ao projeto de seus equipamentos.
A resposta poderia ser que o fabricante fornece apenas um cabo básico para reduzir custos. Ok. Tudo bem.

Mas então surge uma nova pergunta: qual deficiência elétrica específica esse cabo básico possui?
Se existe uma deficiência, ela deveria poder ser facilmente medida.
Se pode ser medida, deve ser possível explicar como ela afeta o circuito.

E, se essa alteração for suficientemente grande para produzir uma diferença sonora consistente, ela deveria poder ser investigada em testes controlados.

A Psicologia de Consumo e o Misticismo no High-End

Existe ainda outro componente nessa discussão: a psicologia de consumo.

Materiais exóticos, designs geométricos complexos, conectores brilhantes, diâmetros impressionantes de cabos, revestimentos sofisticados e embalagens luxuosas criam uma sensação de exclusividade.
A aparência do produto também comunica valor. Qualquer estagiário de propaganda sabe disso.

Um cabo grosso, pesado, dourado e colocado dentro de uma grande caixa de madeira nobre revestida com um belo veludo vermelho transmite imediatamente a sensação de que estamos diante de algo especial.

E quando o produto custa milhares de reais, existe uma expectativa natural de que ele precisa soar melhor. Isso não significa que o consumidor esteja exatamente mentindo quando diz perceber uma diferença.
A percepção pode ser absolutamente sincera.
O problema é que uma percepção sincera não é necessariamente uma medição objetiva.

É justamente por isso que os testes cegos são tão importantes. Eles retiram da equação informações como preço, marca, aparência, grife e expectativa.

Afinal, Que Cabo Devemos Portanto Escolher?

Um cabo de força não precisa ser fabricado com ligas condutoras especiais, isolantes exóticos, capa de seda, malha de prata ou contatos revestidos com ouro ou ródio para cumprir sua função.
Um cabo de cobre de boa qualidade, corretamente dimensionado, com contatos adequados, vai oferecer tudo de que o equipamento precisa para receber uma alimentação eficiente.

Um cabo mais caro pode ser mais bonito, mais robusto, ter melhor acabamento, durar mais ou utilizar materiais mais nobres. Tudo isso pode justificar uma escolha pessoal.
O que precisa ser demonstrado é outra coisa: que essas características produzem uma melhoria sonora audível e consistente.

Um contato de cobre pode precisar de limpeza mais frequente do que outro revestido de ouro, pois pode oxidar mais rapidamente. Isso é uma questão de manutenção e confiabilidade do contato, não necessariamente uma propriedade sonora extraordinária.
Um cabo de força com contatos banhados a ouro pode ser uma boa escolha? Pode. Por que não?
Mas cuidado. Não pague uma fortuna por isso, porque o custo desse benefício pode ser muito mais baixo do que você imagina.

Na última vez que pedi um orçamento para banhar os contatos de um plugue de força em ouro, me pediram 24 reais pelo serviço. Um fabricante que trabalha com grandes quantidades certamente poderá pagar muito menos do que isso. No mercado, um cabo que recebe esse tipo de banho em seus contatos chega a ver seu preço saltar milhares de dólares por conta disso. É a magia do marketing.

Compre um cabo de boa qualidade.
Fuja das versões “Audio Grade” ou “Audiófilas” se a única justificativa para o preço for uma suposta melhoria sonora que não consegue ser demonstrada de maneira consistente.
A chance de pagar um valor exorbitante em um produto que equivale em desempenho a outro corretamente construído, custando uma pequena fração do valor do modelo esotérico, é muito grande.

Não existem cabos “audiófilos”. A corrente elétrica não vai ficar mais “musical” porque o cabo recebeu uma plaquinha dourada com as inscrições “Audio Grade”.
Imagine o fabricante de tinta para pintura do carro lançar uma linha comum com a inscrição “Sport Series”. O desempenho do seu carro não vai mudar por conta dessa tinta “exótica” feita com uma tonalidade de cor que supostamente promove ganhos de potência ao motor. Mas ele vai ganhar mais dinheiro com isso, principalmente se alguém garantir que foi capaz de, subjetivamente, perceber uma aceleração de 0 a 100 km/h em menor tempo, mesmo que cronômetros não provem isso.

Faça uma limpeza periódica dos contatos e entenda que isso é necessário, seja qual for a qualidade do cabo, e neste caso as diferenças podem, sim, serem audíveis de fato. Isso é muito mais importante, e poucos fazem isso.

Mas e Se Eu Gosto?

Aqui existe uma questão que precisa ser respeitada.

Se você gosta de um cabo porque ele é bonito, robusto, bem construído ou simplesmente porque gosta de tê-lo em seu sistema, compre-o. Não existe problema algum nisso.

Se você tiver dinheiro sobrando, achar “diferente” aquele cabo com diâmetro semelhante ao da mangueira da bomba de combustível do posto onde abastece o seu carro, achar bonito aquele revestimento de tecido imitando a pele de uma cobra, gostar de exibir suas peças de ouro pelo status que oferecem e sentir orgulho disso, então compre o cabo audiófilo mais caro que encontrar.
De preferência, aquele que vem em uma grande caixa de mogno com dez camadas de verniz, forrada com couro natural, fecho em prata e com uma placa comemorativa de “Edição Limitada” em ouro.

Compre logo para todos os equipamentos do sistema. Mas não confunda prazer de possuir com evidência de desempenho.
Você pode gostar do cabo, achar bonito, considerar que ele valoriza o seu sistema ou até acreditar que ele melhora o som. Mas, se a afirmação for de que existe uma diferença sonora objetiva, essa afirmação precisa sobreviver ao teste.

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Então Qual é a Questão?

A questão não é proibir ninguém de comprar cabos caros. Não é dizer que todo fabricante é desonesto.
Não é afirmar que toda percepção de diferença seja uma mentira consciente. E também não é dizer que nenhum cabo de força possa apresentar qualquer diferença elétrica.
A questão é muito mais simples: se a diferença sonora é real, onde ela está?

Mostre a medição. Mostre o mecanismo. Faça o teste cego. Repita o resultado. Permita que outras pessoas reproduzam o experimento.
Se a diferença aparecer de maneira consistente, teremos algo concreto para discutir. Se não aparecer, continuaremos diante de uma alegação sustentada principalmente por percepção subjetiva, expectativa e linguagem de marketing.

Conclusão

A audiofilia é uma jornada pessoal e, como tal, possui inevitavelmente um componente subjetivo.
Cada pessoa pode escolher seus equipamentos, cabos e acessórios da maneira que quiser. Mas, quando uma característica subjetiva é apresentada como consequência objetiva da engenharia, a situação muda.

Até que se demonstre, por meio de medições reproduzíveis e testes controlados e auditados de forma independente, uma diferença elétrica relevante capaz de produzir uma diferença sonora consistente, não há base técnica sólida para atribuir a um cabo de força corretamente dimensionado propriedades sonoras extraordinárias.

O último metro pode ser grosso, fino, dourado, prateado, revestido de seda, coberto por uma malha sofisticada ou acondicionado em uma caixa bastante chique, mas, no final, continua sendo um cabo.
E, se alguém afirma que ele transforma o som, a pergunta permanece: onde está a diferença?

(Se você me perguntar qual cabo comprar, eu lhe direi: Um de boa qualidade. Aqui não indicamos mais marcas ou lojas, pois não ganhamos por anúncios ou participações e não queremos sequer dar esta impressão errada.)

For the Serious Audiophile - Audiofilo som high-end