Mais um artigo sobre os absurdos do áudio high-end.
A busca pelo som perfeito abriu espaço para um mercado próspero de acessórios milagrosos. Entre os mais controversos estão os chamados “fusíveis audiófilos”, ou “High-End”, ou “Audio Grade” (ou qualquer outro termo que já inventaram), que são componentes vendidos por centenas e até milhares de dólares com a promessa de entregar palco sonoro mais amplo, graves mais profundos, clareza cristalina ou o tal do “silêncio sepulcral”. No entanto, quando confrontamos o marketing com a engenharia elétrica, a conclusão é inevitável: eles não provocam nenhum milagre no resultado final.

Embora os fabricantes aleguem que utilizam filamentos de alta qualidade e de alta pureza, como ouro e prata, eles esquecem de mencionar que, depois que o sinal sai do fusível, ele volta a trafegar novamente em fios internos, em trilhas de circuito impresso e até nos enrolamentos de cobre dos transformadores, e isso já nos mostra uma contradição no argumento, já que o cobre é usado extensivamente logo após o fusível.
A contradição do fusível audiófilo torna-se ainda mais evidente quando analisamos a própria conduta dos críticos e publicações especializadas do setor. Existe uma inconsistência lógica gritante na forma como esses componentes são avaliados e promovidos no mercado de som high-end. Se a substituição de um fusível comum por um modelo “audiófilo” de centenas ou milhares de dólares provocasse um impacto tão profundo na transparência, no microdetalhamento e na dinâmica de um aparelho, como afirmam em suas análises, o uso desse componente deveria ser um pré-requisito técnico absoluto em todos os testes futuros para avaliar os verdadeiros potenciais de um equipamento, mas isso não acontece.
Para que um crítico possa avaliar o desempenho máximo de um amplificador, DAC ou pré-amplificador, a lógica ditaria que ele jamais deveria testar um equipamento restrito pelo suposto gargalo do fusível original de fábrica, já que o pobre engenheiro que o projetou desconhece as qualidades de um sofisticadíssimo componente que é o fusível. No entanto, o que se observa na prática é o oposto: o mesmo avaliador que escreve páginas eufóricas sobre a metamorfose sonora trazida por um fusível exótico retorna, na semana seguinte, ao uso de fusíveis “comuns” para testar novos equipamentos, sem demonstrar preocupação com o prejuízo na qualidade sonora.
“Eu não consigo ouvir a diferença… mas tenho certeza de que ela está lá.”
Mesmo um fabricante sério e renomado não deixaria de usar um fusível “especial” em seu equipamento high-end se isso o colocasse num patamar tão “mais alto” de desempenho, considerando que para o fabricante de um sofisticado equipamento de áudio, um componente como este custaria para ele muito mais barato que no mercado de varejo e de “acessórios de grife”, onde ilusões são vendidas por preços estratosféricos.
Vale lembrar que dentro do fusível temos um pequeno condutor, um fio fino com capacidade de se romper por fusão quando uma corrente que passa por ele ultrapassa o limite estipulado. E para acondicioná-lo no equipamento, temos clips de pressão ou porta fusíveis feitos de material comum e de qualidade mediana, muitas vezes de aço ou latão, e quando muito, cromados.
O fusível audiófilo só é lembrado quando precisa ser o assunto isolado da análise. Ao avaliar aparelhos de dezenas ou centenas de milhares de dólares, o assunto é sumariamente omitido, ninguém comenta nada sobre o “tão importante componente”, mas se pronuncia sobre a espessura do painel frontal do aparelho… Essa incoerência revela que até mesmo os avaliadores, no nível subconsciente ou deliberado, reconhecem a irrelevância do componente. Se a melhoria fosse real, mensurável ou crucial para o desempenho, nenhum analista sério abriria mão de usar o fusível “correto” como referência fixa de bancada.
A energia elétrica que alimenta os nossos equipamentos foi gerada, possivelmente lá numa hidroelétrica na divisa do país, trafegou por centenas de quilômetros de cabos comuns de cobre e alumínio pendurados em postes, passou por centrais com transformadores, chaves comutadoras, fusíveis de cartucho expostos à chuva e ao sol, novos transformadores em postes, e passou ainda pelas emendas no poste de entrada da sua casa, pelo seu relógio de medição feito com componentes baratos, novamente trafegando pela fiação de entrada da casa, por disjuntores, novos fios e cabos, pelas tomadas, cabo de força, conectores e… ufa!!!…. finalmente chegou no suporte do pequeno fusível de vidro com os seus 2 ou 3 centímetros de comprimento, onde ele fez toda a diferença, transformando a água suja em um vinho francês de reserva especial. Isso lhe parece mais uma destas ideias bizarras para ganhar dinheiro com as fantasias de um hobby que é mais simples do que realmente o pintam? Não, não parece… realmente é!
Sustentar que os últimos dois centímetros de um pequeno fusível, por mais exótico que seja o seu condutor interno ou o seu revestimento, teriam o poder de “purificar” a energia ou de transformar magicamente a qualidade do som, é algo sem qualquer fundamento físico ou elétrico.

A única exceção seria se o fusível original fosse de qualidade tão ruim a ponto de prejudicar a passagem da corrente elétrica por si só, o que o caracterizaria como um componente “defeituoso”, mas, na verdade, é um componente com a mesma qualidade que faz computadores processarem milhões de informações por segundo (desculpem… na verdade… bilhões de informações por segundo). É o mesmo padrão de componente que faz equipamentos médicos de alta precisão realizarem operações de suporte à vida, que faz o seu televisor fornecer aquelas fantásticas imagens em 4K, ou que faz com que um rádio comunicador envie a sua voz ou dados digitais para o mundo todo. Mas, quando chega no áudio high-end, esse fusível faz tudo mudar, afinal ele não seria capaz de conduzir com essa mesma competência uma simples corrente elétrica de 60Hz que alimenta o nosso amplificador.
Podemos, ainda, desmerecer o fabricante que construiu um equipamento de alto desempenho de milhares de dólares, mas achou melhor usar um fusível de alguns poucos reais para não encarecer o equipamento.
Eu já fiz muitos testes com fusíveis, usando equipamentos sensíveis e de alta precisão para conferir o sinal elétrico antes e depois de passar por ele, já fiz testes cegos, e vi inúmeros experimentos sérios feitos por quem não vive de vender ilusões, e nada comprovou que um fusível de centenas de dólares é capaz de fazer mais do que um modelo de boa qualidade de alguns poucos reais.
No final das contas, trata-se de mais um típico acessório “caça-níqueis”, onde o mercado explora o desejo do entusiasta pela tal “perfeição sonora”, oferecendo a ilusão de um upgrade simples e rápido ao custo de uma verdadeira fortuna
Esta é mais uma das grandes mentiras que contam por aí e que deixa muita gente mais rica, e muita gente mais pobre.
