Quando os Olhos Enganam os Ouvidos

No universo do áudio hi-end, o consumidor deixa de ser visto como audiófilo e passa a ser tratado como presa de um mercado que vende até o inaudível.

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Eduardo Martins

Como um artigo criado há 17 anos pode ser tão atual, e ao mesmo tempo percebemos que pouca coisa mudou nesse tempo todo?

O artigo abaixo foi escrito por Sean Olive, em abril de 2009, e mostra um lado revelador do mercado predador do som de alta fidelidade. Mas, nem toda a coragem, a experiência, a ousadia e a seriedade de seu criador foram suficientes para criar bases para iniciar uma mudança de rumo  da atual situação do mercado audiófilo.
Segue o texto com tradução acessível:

“A Desonestidade dos Testes de Audição com Equipamentos Visíveis

Uma controvérsia que persiste dentro da comunidade de áudio high-end diz respeito à eficácia dos testes de audição às cegas em comparação com os testes realizados com os equipamentos à vista. Em um teste de audição às cegas, o ouvinte não possui informações específicas sobre quais produtos estão sendo testados, eliminando, dessa forma, a influência psicológica que a marca, o design, o preço e a reputação do produto exercem sobre a impressão do ouvinte a respeito de sua qualidade sonora.
Embora protocolos duplo-cegos sejam uma prática padrão em praticamente todos os campos da ciência — incluindo testes de consumo de alimentos e vinhos —, a indústria de áudio continua presa à idade das trevas nesse aspecto. A grande maioria dos fabricantes e avaliadores de equipamentos de áudio continua recorrendo à audição com os produtos à vista para tomar decisões importantes sobre a qualidade sonora dos produtos.

Uma questão importante é saber se as avaliações de produtos de áudio realizadas com os equipamentos à vista produzem julgamentos honestos e confiáveis sobre como o produto realmente soa.

Um experimento com caixas acústicas: teste às cegas versus teste com os equipamentos à vista

Essa questão foi testada em 1994, pouco depois de eu ingressar na Harman International como gerente de Avaliação Subjetiva [1]. Minha missão era introduzir testes formais de produtos utilizando protocolos duplo-cegos na Harman.
Para minha surpresa, essa iniciativa encontrou forte oposição por parte de alguns dos profissionais mais estabelecidos das áreas de marketing, vendas e engenharia, que acreditavam que, por serem profissionais de áudio treinados, estavam imunes à influência dos vieses provocados pela visão dos produtos.
Infelizmente, naquela época não havia estudos científicos publicados na literatura de áudio que pudessem apoiar ou refutar essas afirmações. Por isso, foi elaborado um experimento de audição especificamente para testar essa hipótese. Os detalhes desse teste estão descritos nas referências 1 e 2.

Ao todo, 40 funcionários da Harman participaram dos testes, atribuindo avaliações de preferência a quatro caixas acústicas que abrangiam uma ampla faixa de tamanhos e preços. O teste foi realizado tanto em condições com os produtos à vista quanto às cegas, utilizando quatro diferentes seleções musicais.

As médias das avaliações das caixas acústicas e os intervalos de confiança de 95% estão representados na Figura 1, tanto para os testes com os produtos à vista quanto para os testes às cegas.
Os testes com os equipamentos à vista produziram um aumento significativo nas avaliações de preferência pelas caixas acústicas maiores e mais caras, G e D.
(Nota: G e D eram caixas acústicas idênticas, exceto pelos respectivos crossovers, que haviam sido projetados, aparentemente, para atender às diferenças de gosto entre os consumidores alemães e os do norte da Europa. As diferenças perceptuais desprezíveis entre as caixas G e D encontradas nesse teste levaram à criação de um único SKU de caixa acústica para toda a Europa e ao desaparecimento de um engenheiro especializado na arte perdida de desenvolver a sonoridade específica das caixas alemãs.)

Os vieses relacionados à marca e a lealdade dos funcionários aos produtos da Harman também foram fatores nos testes com os produtos à vista, uma vez que três dos quatro produtos (G, D e S) eram da marca Harman.
A caixa acústica T era um modelo grande e caro (US$ 3.600) de um concorrente, que havia recebido elogios da imprensa especializada em áudio high-end por sua qualidade sonora.
Entretanto, nem mesmo a lealdade à marca Harman foi capaz de superar os preconceitos dos ouvintes associados ao tamanho relativamente pequeno, ao preço baixo e aos materiais plásticos da caixa acústica S. No teste com os equipamentos à vista, ela foi menos preferida que a caixa T. Isso contrasta com o teste às cegas, no qual a caixa S foi ligeiramente mais preferida que a caixa T.

Os efeitos relacionados à posição das caixas acústicas também foram um fator, pois esses testes foram realizados antes da construção do Laboratório de Audição Multicanal, equipado com seu sistema automatizado de troca de posição das caixas acústicas.
Os efeitos da posição sobre as avaliações de preferência estão representados na Figura 2, tanto para os testes às cegas quanto para os testes com os equipamentos à vista.
Os efeitos da posição sobre a preferência são claramente visíveis nos testes às cegas. Entretanto, esses efeitos estão quase completamente ausentes nos testes com os produtos à vista, nos quais os vieses visuais e os fatores cognitivos dominaram o julgamento dos estímulos auditivos feito pelos ouvintes. Os ouvintes também foram menos sensíveis aos efeitos relacionados ao programa musical nos testes com os equipamentos à vista do que nas condições de teste às cegas. Por fim, os testes demonstraram que ouvintes experientes e inexperientes (tanto homens quanto mulheres) tendiam a preferir as mesmas caixas acústicas, resultado que foi confirmado posteriormente em um estudo mais recente e de maior escala. Os ouvintes experientes simplesmente apresentaram respostas mais consistentes. Como se verificou, os ouvintes experientes não eram nem mais nem menos imunes aos efeitos dos vieses visuais do que os ouvintes inexperientes.

Em resumo, os testes de audição com caixas acústicas realizados neste estudo, com os produtos à vista e às cegas, produziram avaliações de qualidade sonora significativamente diferentes.
Os vieses psicológicos presentes nos testes com os equipamentos à vista foram suficientemente fortes para que os ouvintes se tornassem, em grande medida, insensíveis a mudanças reais na qualidade sonora provocadas pelas interações acústicas entre a caixa acústica, sua posição na sala e o material musical utilizado.
Em outras palavras, se você deseja obter uma medida precisa e confiável de como um produto de áudio realmente soa, o teste de audição precisa ser realizado às cegas.
É hora de a indústria de áudio amadurecer e reconhecer esse fato, se quiser preservar a confiança e o respeito dos consumidores.
Talvez já seja tarde demais, segundo Gordon Holt, fundador da revista Stereophile, que lamentou a situação em uma entrevista recente:

“O áudio como hobby está morrendo, em grande parte por sua própria responsabilidade. No que diz respeito ao mundo real, o áudio high-end perdeu sua credibilidade durante a década de 1980, quando se recusou categoricamente a se submeter aos controles básicos de honestidade (testes duplo-cegos, por exemplo) que legitimaram todas as demais áreas científicas sérias desde Pascal. Essa recusa é motivo de diversão interminável e zombeteira entre pessoas racionais e de constrangimento permanente para mim.” “

Fonte: Sean Olive — The Dishonesty of Sighted Listening Tests.

Referências:

[1] Floyd Toole and Sean Olive,”Hearing is Believing vs. Believing is Hearing: Blind vs. Sighted Listening Tests, and Other Interesting Things,” presented at the 97th AES Convention, preprint 3894 (1994). Download here.

[2] Floyd Toole, Sound Reproduction: The Acoustics and Psychoacoustics of Loudspeakers and Rooms, Focal Press, 2008.

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Conclusão

O mais desconcertante neste relato de Sean Olive talvez não seja descobrir que os testes às cegas produzem resultados diferentes dos testes realizados com os equipamentos à vista. O realmente revelador é perceber há quanto tempo isso já era conhecido, e quanto tempo parte da indústria de áudio levou, e ainda leva, para aceitar as suas implicações.

O experimento realizado na Harman em 1994 mostrou algo bastante incômodo: quando o ouvinte sabe o que está ouvindo, características como marca, tamanho, preço, aparência e reputação do produto passam a interferir em seu julgamento. E não estamos falando de ouvintes inexperientes ou de pessoas escolhidas aleatoriamente. Havia profissionais da própria indústria, incluindo pessoas que acreditavam estar suficientemente treinadas para serem imunes a esse tipo de influência. Não eram. E esse é um ponto que continua extremamente atual.

Basta observar a linguagem utilizada em boa parte do universo do áudio high-end. Um cabo é substituído e, subitamente, surgem descrições que parecem pertencer mais à literatura publicitária do que à engenharia: “foi um choque”, “quase caí de costas”, “a diferença foi abismal”, “o palco simplesmente se abriu”, “os instrumentos ganharam vida”, “os graves desceram a uma profundidade jamais experimentada”. Quanto mais caro o produto, frequentemente mais extraordinária parece ser a transformação.
Mas então surge uma pergunta extremamente simples: Se a diferença é realmente tão abismal, por que não demonstrá-la em um teste às cegas?

É nesse momento que, curiosamente, a certeza absoluta costuma dar lugar às ressalvas: “O ouvido precisa de tempo para se adaptar”, “O componente necessita de amaciamento de 100, 200 ou 500 horas”, “O teste foi rápido demais”, “O ouvinte estava cansado”, “O teste cego não é conclusivo”, “A diferença existe, mas não pode ser captada dessa maneira” e dezenas de outras desculpas para evitar a realidade.

E assim, aquilo que antes era descrito como uma transformação sonora monumental, repentinamente e convenientemente passa a exigir uma quantidade cada vez maior de condições especiais para poder ser percebido, justamente quando desaparece a informação sobre qual produto está sendo ouvido. Há aqui uma inversão particularmente curiosa.


Quando o produto está identificado, a diferença é apresentada como óbvia. Quando o produto é ocultado, a diferença passa a depender de uma série de condições.


É difícil não perceber a contradição. Se alguém afirma que a troca de um cabo provocou uma diferença “abismal”, seria razoável esperar que essa diferença sobrevivesse à simples retirada da etiqueta do produto. Se ela desaparece quando o ouvinte deixa de saber qual cabo está conectado, talvez seja necessário considerar uma hipótese muito menos glamorosa: aquilo que estava sendo percebido poderia não estar vindo do cabo.

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E é justamente aí que o trabalho de Sean Olive se torna tão importante. O estudo não está dizendo simplesmente que “as pessoas são enganadas”. Ele demonstra experimentalmente que a informação visual e cognitiva modifica a avaliação sonora. E demonstra isso mesmo entre pessoas experientes.
Óbvio que muitas vezes estas diferenças têm outro propósito pessoal, seja enaltecer um produto para despertar o interesse do consumidor em adquiri-lo, ou de favorecer um anunciante ou parceiro comercial, com o mesmo objetivo final.

Isso deveria ser uma advertência para toda a indústria.
Em vez disso, décadas depois, ainda encontramos uma parcela do mercado que parece tratar o teste às cegas como uma espécie de ameaça à própria existência de determinadas crenças. O problema não é realizar o teste. O problema é que o resultado pode contrariar uma narrativa cuidadosamente construída, e existe uma razão óbvia para isso. Um produto que custa dez vezes mais precisa, de alguma maneira, parecer justificar seu preço. Se a diferença sonora não for facilmente demonstrável, resta o discurso. E o discurso pode ser extraordinariamente sofisticado.

Pode falar em microdetalhes, textura, espacialidade, transparência, velocidade, silêncio entre as notas, tridimensionalidade, organicidade, foco, arejamento e dezenas de outras expressões perfeitamente legítimas quando utilizadas para descrever diferenças audíveis reais. O problema começa quando essas palavras deixam de descrever uma diferença que pode ser demonstrada e passam a fabricar a percepção de uma diferença que precisa ser acreditada. E é nesse ponto que o áudio high-end pode entrar em um território realmente desagradável. E há momentos em que a palavra repugnante não parece exagerada.

Não porque equipamentos caros sejam necessariamente ruins. Não porque diferenças entre equipamentos jamais existam. E muito menos porque todo profissional ou entusiasta do áudio esteja agindo de má-fé.
A questão é outra


Quando o objetivo comercial passa a ser convencer o consumidor de que ele está ouvindo algo que não consegue demonstrar quando todas as pistas externas são removidas, o áudio deixa de ser apenas uma busca pela reprodução fiel da música e passa a explorar os mecanismos psicológicos da percepção humana.


Nesse cenário, o consumidor não está mais comprando apenas um equipamento, ele está comprando uma expectativa. Está comprando uma narrativa. E, em alguns casos, está comprando a própria confirmação de que fez uma escolha especial.
Talvez seja justamente por isso que os testes às cegas incomodem tanto. Eles não perguntam quanto custa o equipamento. Não perguntam qual é a marca. Não mostram o acabamento. Não exibem o logotipo. Não informam o prestígio do fabricante. Não dizem ao ouvinte o que ele deveria estar ouvindo. Restam apenas a música e o som.

E, no final, existe uma pergunta bastante simples: Você consegue distinguir um do outro? Se consegue, ótimo. A diferença pode ser investigada, medida e discutida. Se não consegue, talvez seja hora de ter a honestidade intelectual de admitir que pelo menos parte daquilo que parecia tão evidente pode ter vindo de outro lugar: dos olhos, da expectativa, do preço, da marca, da sugestão.

E talvez seja exatamente por isso que, depois de mais de décadas de discussões, o teste às cegas continue sendo tão incômodo para determinados setores do mundo high-end.
E este artigo foi resgatado apenas como um exemplo, entre tantos outros que relatam inúmeros testes semelhantes com as mesmas conclusões.

Quando o marketing termina, quando os adjetivos desaparecem e quando ninguém mais sabe qual componente está conectado, resta apenas aquilo que realmente importa: o que podemos ouvir e demonstrar que ouvimos.

For the Serious Audiophile - Audiofilo som high-end