Quais as vantagens e desvantagens de cada opção?

Uma questão de experiência
Muita gente adora assistir a um show ao vivo. Outras pessoas simplesmente detestam. Há quem considere uma apresentação presencial uma experiência insubstituível e há quem prefira ouvir música confortavelmente em casa, diante de um bom sistema de som high-end.
Mas o que, afinal, faz uma experiência musical ser boa?
Essa é uma pergunta interessante, especialmente para quem possui em casa um sistema de alta-fidelidade de elevado nível, capaz de reproduzir música com elevada qualidade sonora e, quando associado a uma boa tela, também proporcionar uma excelente experiência visual.
A questão que proponho aqui não é simplesmente saber se o som de um show é mais ou menos fiel do que o de um sistema hi-end. A questão é outra:
Vale mais a pena sair de casa para assistir a um artista ao vivo ou sentar em nossa própria sala, diante de um excelente sistema de áudio e vídeo, e assistir à mesma apresentação com todo o conforto e controle que temos em casa?
A resposta, naturalmente, dependerá do que cada pessoa procura quando ouve música.
O que significa assistir a um show?
No show ao vivo xxiste o artista diante de nós, a iluminação, o palco, a movimentação dos músicos, a reação da plateia, a expectativa, a sensação de participar de um acontecimento que está acontecendo naquele momento. Tudo isso tem o seu valor.
Para muitas pessoas, talvez seja justamente essa combinação que torna um show especial. Mas é preciso reconhecer que a experiência é composta de uma série de elementos, alguns muito agradáveis, outros nem tanto.
E é justamente aí que a comparação com a experiência doméstica começa a ficar interessante.
Quando o show precisa de amplificação
Em uma apresentação musical, podemos encontrar situações muito diferentes.
Uma pequena formação de jazz, um recital de violão ou uma apresentação de música de câmara em uma sala apropriada podem ser realizados sem amplificação, utilizando essencialmente o som acústico dos próprios instrumentos e a acústica do ambiente.
Uma orquestra sinfônica ou filarmônica também pode se apresentar sem amplificação, dependendo da sala e da proposta do espetáculo.
Já nos grandes shows de rock e música pop, a amplificação é praticamente inevitável.
Uma banda não conseguiria atingir dezenas de milhares de espectadores em um estádio apenas com a energia acústica produzida naturalmente por seus instrumentos.
O som precisa ser coletado por microfones e captadores, processado, amplificado e distribuído por grandes sistemas de caixas acústicas.
Isso cria outra característica importante da experiência ao vivo: o que ouvimos depende também de toda a estrutura de sonorização do evento, até da sua acústica.
Isso não é necessariamente um problema. Sistemas profissionais podem ser extraordinariamente sofisticados e proporcionar resultados impressionantes.
Mas o som que chega ao público passa a depender de muitas variáveis: microfones, processamento, equalização, compressão, amplificação, caixas acústicas, posicionamento e, naturalmente, das escolhas do engenheiro de som, ou seja, não é mais uma experiência de som natural, mas condicionada a equipamentos.
Além disso, diferentes lugares da plateia podem proporcionar experiências também distintas.
Quem está próximo ao palco pode ouvir algo bastante diferente de quem está no fundo do estádio.
Quem está diante de uma determinada caixa acústica pode experimentar outra relação entre graves, médios e agudos. Quem está nas laterais pode ter uma percepção espacial diferente.
Portanto, mesmo dentro do mesmo espetáculo, não existe necessariamente uma única experiência sonora para todos os espectadores, e nem garantia que a opção escolhida é a melhor. Nem sempre estar de frente para o palco e a poucos metros dos músicos, significa que aquele é o local de audição perfeito. Muitas vezes o volume sonoro ali é propositalmente exagerado para que alcance lugares mais distantes ao fundo.
O som também é parte da experiência, mas não é tudo
Um sistema de som hi-end em casa oferece uma situação bastante diferente.
Temos controle sobre a posição de audição, o posicionamento das caixas, a acústica da sala, o nível de volume e, em alguns sistemas, até sobre recursos de correção e equalização para adequação da reprodução à nossa curva de audição.
Podemos até procurar uma configuração que nos agrade particularmente.
Nossa sala também possui limitações, os nossos equipamentos, assim como as gravações.
Mas existe uma vantagem fundamental: em casa, temos controle sobre a experiência. No show, não.
O nosso ouvido também participa
Existe ainda uma questão pouco discutida. Cada pessoa percebe o som de maneira um pouco diferente, isso já foi provado. A nossa curva de sensibilidade auditiva não é idêntica. Existem diferenças individuais de percepção, e elas também variam conforme a frequência e o nível de pressão sonora.
Assim, um determinado equilíbrio sonoro pode agradar muito a uma pessoa e incomodar outra. Em casa, temos mais possibilidade de adaptar a reprodução às nossas necessidades ou preferências. Em uma apresentação ao vivo, evidentemente, não podemos pedir que todo o sistema de sonorização seja ajustado especificamente para os nossos ouvidos. Podemos, no máximo, mudar de lugar.
Mas esse é apenas um dos aspectos da experiência.
O volume e a sensação de impacto
Há outro fator que pode tornar um show particularmente impressionante: o volume.
Grandes apresentações podem produzir níveis de pressão sonora muito elevados.
Para quem está acostumado a ouvir música em casa, especialmente em apartamentos ou em ambientes onde é preciso respeitar vizinhos, essa quantidade de energia acústica pode causar uma maior impressão de impacto e presença. Em casa, mesmo que nosso equipamento seja capaz de reproduzir níveis elevados com grande dinâmica, frequentemente não podemos utilizá-lo dessa maneira, pois temos limitações que podem ir de compromissos de acústica por conta de decoração (não ter uma sala dedicada) até as limitações de viver num apartamento, onde o seu teto é o piso do apartamento de cima, o seu piso o teto do apartamento de baixo, e as paredes compartilhadas meio-a-meio com outros vizinhos. Além disso, muitas salas domésticas não foram projetadas ou tratadas para funcionar confortavelmente em níveis sonoros mais elevados (por sorte eu estou livre de todas estas limitações).

No show, podemos experimentar um volume sonoro que muitos audiófilos não conseguem em suas salas, o que nem sempre é o mais recomendado. Muitas vezes o volume destas apresentações superam as recomendações de uma audição segura.
Mas é importante entender que impacto e prazer não dependem exclusivamente de volume, assim como um sistema doméstico não precisa reproduzir os níveis de um estádio para proporcionar uma experiência musical extremamente envolvente. Instrumentos e vozes não possuem na verdade esse nível de volume tão exagerado, ou seja, ainda existe uma artificialidade na apresentação ao vivo.
Mas existe o público…
Aqui começa uma diferença bastante curiosa. Quando assistimos a um show em casa, podemos controlar praticamente tudo o que acontece ao nosso redor. No show ao vivo, temos que conviver com o restante do público.
E isso pode não ser uma experiência muito agradável. É comum que pessoas assistam ao show em pé mesmo quando existem cadeiras. Para os mais baixinhos, isso pode significar passar boa parte da apresentação olhando para as costas de alguém, mesmo que ele se levante também.
Outros gostam de pular e dançar. Há quem mantenha braços levantados balançando ou o celular levantado durante boa parte do espetáculo, para gravar vídeos que serão posteriormente compartilhados nas suas redes sociais (vai entender a razão disso…).
E, para quem está atrás, aquela pequena tela iluminada pode se transformar em uma espécie de segundo palco, justamente entre você e o artista.
Muitas vezes, as pessoas acabam acompanhando o show por telões, quando existentes.

E tem gente que canta
Também é comum o público cantar junto com o artista, e para quem pagou justamente para ouvir o cantor, pode não ser tão interessante ter milhares de pessoas cantando ao seu redor.
E existe uma situação ainda mais curiosa: Muitas vezes o intérprete interrompe a própria música e deixa para a plateia cantar determinada passagem, quando não toda a música, como já vi acontecer, apenas para demonstração da popularidade da sua música.
Esta é uma grande ironia, já que você comprou o ingresso para ouvir o artista e, justamente naquele momento, o artista espera que você cante. E ele, pagou para te ouvir?
Em casa, naturalmente, podemos escolher. Se quisermos cantar, cantamos. Se quisermos ouvir o artista, ninguém nos impede.
Os outros sons da experiência
Uma apresentação ao vivo também pode trazer assobios, gritos, conversas, aplausos, pessoas gritando o nome do artista e outras manifestações da plateia, prejudicando bastante a experiência de quem foi ao show com a intenção de apreciar uma música ao vivo.
Existem, ainda, outras coisas menos agradáveis, principalmente em cidades mais povoadas. Furtos de pertences podem ocorrer em locais muito cheios. Há pessoas fumando ou utilizando produtos (mais estranhos) que produzem fumaça. Existem odores desagradáveis. Pessoas empurrando e batendo braços e pernas umas nas outras.
Discussões e brigas podem acontecer. Dependendo do evento, podem ocorrer situações de violência. Nada disso aparece quando estamos sentados em nossa sala.
E se o show for ao ar livre?
Nesse caso, acrescentamos mais algumas variáveis: sol, calor, frio, frio, chuva, vento, umidade, poeira, etc.
Em nossa sala, além de podermos nos acomodar numa poltrona bastante confortável com uma taça de vinho ao lado, ainda podemos ter algo que um estádio não oferece: controle climático.
Podemos simplesmente escolher a temperatura que queremos.
A aventura começa antes do espetáculo
Também existe toda a logística. Para chegar ao local, precisamos enfrentar o trânsito e a violência das cidades grandes. Depois vem o estacionamento. As filas. Os acessos. As revistas pessoais.
E, dependendo do evento e da região, ainda precisamos considerar questões relacionadas à segurança do local. Pelo menos aqui ainda não temos atos terroristas.
Se os organizadores recomendam chegar duas horas antes porque o movimento será intenso, já incorporamos um período considerável à experiência antes mesmo de o espetáculo começar.
Na saída existe outro problema. Antes do show, as pessoas chegam em horários diferentes. Mas na saída, praticamente todo mundo irá embora ao mesmo tempo. E aí surgem as filas para o estacionamento, os congestionamentos e as lentidões.
Quem opta por transporte por aplicativo pode enfrentar outra aventura: esperar um motorista, encontrar dificuldades para conseguir um carro ou lidar com cancelamentos. Eu, particularmente, prefiro ficar bem longe disso.
Não há como negar que isso é bem estressante.

E quanto custa essa experiência?
Existe ainda um aspecto que normalmente não aparece quando comparamos “show ao vivo” e “música em casa”: o custo total.
O ingresso é apenas uma parte. Há estacionamento, combustível, transporte, alimentação, eventualmente hospedagem, e outros custos para deslocamento.
Não estou dizendo que isso torne o show caro ou que não valha a pena. Para muita gente, vale cada centavo. Mas, quando comparamos experiências, devemos considerar o conjunto.
Em casa, o equipamento já está ali. A sala já está ali. A poltrona também já está ali. E o acesso à música pode custar apenas o valor da gravação, do serviço de streaming ou do filme do concerto.
E o que ganhamos em casa?
Em casa, podemos criar uma experiência bastante sofisticada.
Podemos sentar na posição ideal. Podemos escolher o volume. Podemos ajustar a iluminação. Podemos controlar a temperatura. Podemos escolher o álbum ou a apresentação. Podemos selecionar uma gravação especialmente bem realizada. Podemos assistir ao espetáculo em uma tela grande. E podemos reproduzir o áudio em um sistema de alto nível, capaz de proporcionar uma experiência espacial e dinâmica extraordinariamente envolvente. Podemos ainda escolher a distância da tela, a posição das caixas e praticamente todos os elementos do ambiente.
E existe algo que considero especialmente importante: ninguém vai atrapalhar a nossa audição.
Podemos escolher o que queremos assistir
Outra vantagem é o controle sobre o conteúdo.
No show, temos um repertório determinado. Se o artista tocar aquela música que não gostamos, teremos que esperar. Se ele apresentar (ou tentar “empurrar”) uma novidade que não nos agrada, não existe um botão para pular. Se quisermos ouvir novamente um título, pode esquecer.
Em casa, basta pressionar um botão. Podemos avançar. Podemos voltar. Podemos repetir. Podemos interromper. Podemos continuar depois. Podemos simplesmente pular a música chata. E podemos fazer isso sem ofender ninguém.
Podemos até assistir novamente
Existe ainda algo que o show presencial jamais poderá oferecer da mesma maneira: a possibilidade de repetir a experiência exatamente como desejamos.
Podemos assistir à mesma apresentação amanhã, e depois novamente. Podemos voltar a uma determinada música. Podemos rever um solo. Podemos observar novamente o músico. Podemos escolher outro momento para assistir. Um show ao vivo é um acontecimento único, quando termina, terminou.
Uma gravação nos permite voltar a ele quantas vezes quisermos.
Mas e a presença do artista?
Existem pessoas que sentem algo especial em estar fisicamente diante do artista, que lhe exerce um misto de sedução, admiração, curiosidade e atração.
E se quisermos ver os músicos?
Para quem tem esse tipo de vontade, nesse caso, existe uma alternativa particularmente interessante. Podemos colocar um DVD, um Blu-ray ou um vídeo por streaming de uma apresentação. E aqui surge uma combinação bastante poderosa. Temos o espetáculo visual. Podemos ver os músicos. Podemos acompanhar seus movimentos. Podemos observar detalhes dos instrumentos. Podemos enxergar o rosto do músico. Podemos acompanhar suas mãos.
Podemos ver detalhes que alguém sentado a cinquenta metros do palco jamais conseguiria perceber. E tudo isso sem uma pessoa levantando um celular ou balançando os braços na nossa frente.

O hi-end como experiência, não apenas como equipamento
Talvez esse seja um ponto importante para quem possui um sistema hi-end.
É muito comum falar sobre equipamentos como se o objetivo fosse simplesmente obter melhores especificações, menor distorção, maior resolução ou maior capacidade dinâmica. Mas o objetivo final não é ouvir equipamentos, é ouvir música.
Um sistema de alto nível pode transformar a sala de casa em um ambiente extremamente envolvente. Podemos ter grande escala sonora, dinâmica, espacialidade, definição, graves profundos, um som direcionado à nossa percepção particular e uma reprodução capaz de nos fazer esquecer, por alguns momentos, que estamos diante de caixas acústicas.
Não é preciso que isso seja uma cópia perfeita de uma apresentação ao vivo. A experiência pode ser boa justamente por ser uma experiência pessoal.
Precisamos realmente conhecer o som ao vivo?
Tem gente que diz ver alguns shows ao vivo por influência de velhas bobagens ditas por antigos “influenciadores” do ramo de áudio, como “Você precisa conhecer o instrumento ao vivo para saber como ele realmente soa”. Existe uma diferença entre conhecer um instrumento e acreditar que aquela experiência presencial nos fornece uma referência absoluta de como ele deve soar em nossa sala, como já provamos em outras oportunidades.
Onde ouvimos o instrumento? A um metro? A cinco? No palco? Na primeira fila? No fundo da sala? Em uma sala pequena? Em um grande teatro?
E como nossos próprios ouvidos interpretaram aquela experiência? O som que uma pessoa ouve não é uma fotografia objetiva e universal da realidade. Nossa percepção pessoal participa da experiência. Nossos desvios auditivos estarão ali presentes do mesmo jeito.
Por isso, o argumento de que alguém que nunca ouviu determinado instrumento “ao vivo” não teria condições de apreciar corretamente sua reprodução deve ser visto com bastante cautela. A realidade mudou, hoje compreendemos melhor a diferença entre som real e som ao vivo, como foi demonstrado primeiro aqui no Hi-Fi Planet.
Não existe uma única maneira correta de ouvir música
Talvez seja justamente aí que esteja a questão principal. Não existe uma maneira universalmente correta de experimentar música. Há quem busque a emoção coletiva de um estádio. Há quem queira estar a poucos metros do artista por admiração e até curiosidade, ou para exibir fotos nas redes sociais como se isso aumentasse o seu valor pessoal.
Há quem adore cantar junto. Há quem queira dançar. Há quem queira sentir o impacto, até irreal e prejudicial, de um sistema de som muito potente. E há quem simplesmente queira fechar a porta da sala, sentar em uma poltrona e ouvir música sem que ninguém o incomode.
É uma escolha pessoal.
Afinal, qual experiência é melhor?
Talvez a pergunta esteja mal formulada. A pergunta não deveria ser: “É melhor ouvir música ao vivo ou em casa?” Talvez devêssemos perguntar: “O que eu quero experimentar quando ouço música?”
Se eu quero a presença física do artista, a interação (boa ou má) da multidão, a sensação de participar de um acontecimento ao vivo e a emoção de estar diante dos músicos, então o show ao vivo provavelmente será a escolha certa.
Mas se quero ouvir música com atenção, conforto, controle e qualidade, sem trânsito, filas, celulares, pessoas conversando, chuva, calor ou alguém cantando atrás de mim, minha sala pode oferecer uma experiência extraordinária, porque para muitos, ouvir música é uma experiência essencialmente sonora, não aberta a distrações ou aborrecimentos apenas para ver o artista ali perto (ou ainda longe). E nada lhe impede de acrescentar uma apresentação em vídeo à esta experiência, se for de sua vontade.
E, quando terminar, continuo no conforto da minha casa, sem os aborrecimentos que surgem depois de um evento ao vivo.
No final, música é prazer
Não existe obrigação de gostar mais de um show ao vivo simplesmente porque ele é “ao vivo”.
Alguém ouve música porque é obrigado?
Tirando os profissionais que trabalham com música, acredito que a grande maioria das pessoas a ouve simplesmente por prazer. E é isso o que importa. Se um show ao vivo proporciona a você as sensações que você quer, vá ao show.
Se prefere ficar em casa diante de seu sistema de alta-fidelidade, faça isso. Você investiu muito nele para isso.
E se gosta dos dois, então que seja. Não precisamos transformar uma preferência pessoal em uma verdade universal.
No final das contas, a melhor experiência musical é aquela que nos proporciona mais prazer, e essa escolha é muito individual.
