Mentiras do Mundo do Áudio 1 – Avaliações (Reviews)

Estamos iniciando aqui uma série de artigos com a intenção de apontar as diversas mentiras que circulam no hobby do áudio, começando pelas avaliações (reviews) de equipamentos e acessórios.

Eduardo Martins

Conforme prometido, estamos iniciando aqui uma série de artigos com a intenção de apontar as diversas mentiras que circulam no hobby do áudio. Os textos serão, como sempre, concebidos de forma imparcial e honesta, sempre com comprovações dos fatos apresentados e sem a tendência muito comum de alguns produtores de conteúdos de manipular as abordagens em direção a interesses pessoais. Vamos lá…

No cenário do som de alta fidelidade, o que muitas vezes é apresentado como uma análise técnica e imparcial, na verdade, esconde uma teia complexa de interesses comerciais. Empresas de áudio, fabricantes, distribuidores, revendas e até publicações dependem de capital e precisam gerar lucros. Como esse dinheiro vem dos consumidores, influenciá-los nas decisões de compra e favorecer marcas específicas tornou-se uma estratégia central nesse ramo.
Criar estímulos para levar o consumidor a acreditar que ele deve fazer upgrades constantes, em razão do surgimento de “novidades” que vão dar um salto significativo de qualidade em seu sistema, também é uma estratégia muito utilizada, mas na maioria das vezes exagerada e forçada.

No meio editorial, isso é bastante evidente, e ao analisarmos algumas publicações sobre o tema ao longo dos anos, constataremos inúmeras contradições de opiniões. São mudanças de posicionamento que se adaptaram ao tempo não por falhas de conhecimento ou pelo amadurecimento do avaliador, mas por uma clara necessidade de atender aos interesses de anunciantes, patrocinadores e a outras exigências comerciais ou pessoais.

Isso, obviamente, se reflete diretamente nas avaliações de equipamentos e acessórios. Como um avaliador pode ser totalmente imparcial se o fabricante ou o distribuidor do produto avaliado estampa as páginas de sua revista com anúncios pagos?

Eu vivi isso na pele. Certa vez, ao avaliar um equipamento para uma revista, apontei defeitos graves que ele apresentava. O texto foi publicado sem a revisão prévia do editor que se encontrava viajando ao exterior, que depois me contatou extremamente nervoso, afinal, eu havia criticado o produto de um anunciante importante (um cliente rentável) que costumava comprar várias páginas de publicidade. Fui intimado a fazer uma retratação. Recusei-me e preferi deixar de contribuir com a publicação. Como o áudio sempre foi apenas um hobby para mim, e a minha contribuição com aquela publicação havia nascido apenas da vontade de colaborar com a comunidade de consumidores, eu não dependia de qualquer compensação financeira vinda dos meus artigos.

Aquela ocasião, porém, serviu para que eu sentisse de perto o quão complicado é esse sistema. Passei a fazer observações mais rigorosas e, com o tempo, passei a identificar inúmeras contaminações em artigos e testes de diversas publicações, que iam desde a manipulação de imagens e contradições textuais até distorções flagrantes de informações.

É claro que apontar tais comportamentos exige extremo cuidado. Como advogado, conheço bem as implicações legais de se fazer uma acusação sem o devido respaldo de provas e evidências. Por questões jurídicas delicadas, guardei muitas coisas para mim, mas muitas outras pude expor sem receio de complicações. Para cada demonstração que fiz desses desvios, preocupei-me em reunir um material robusto para me resguardar legalmente e evitar dores de cabeça. Criei barreiras contra aborrecimentos jurídicos, mas não contra ameaças que se tornaram bastante comuns em minha vida, devidamente ignoradas.

Ainda assim, acredito que consegui provar essa tese e demonstrar que confiar cegamente em certos testes é um caminho muito perigoso. Já vimos situações absurdas, como comerciantes atuando como colaboradores de revistas para avaliar os próprios equipamentos que vendiam, e até sócios de fabricantes de aparelhos que, por coincidência, eram sempre muito poupados nas críticas, o que põe em xeque a credibilidade de todo o sistema de recomendações. É o mesmo que entrar em um restaurante e perguntar ao garçom ou ao gerente se o prato do dia está bom. Duvido que ele responda: “Não, senhor, está uma porcaria. Não coma.”

Mesmo as avaliações bem-intencionadas podem sofrer contaminações severas pela subjetividade e pela sensibilidade auditiva individual, sem contar fatores externos como a acústica da sala, o casamento entre os equipamentos e as condições da rede elétrica. Fatores como a presbiacusia, que é a perda auditiva natural relacionada à idade, e outros desvios de sensibilidade fazem com que, frequentemente, cada crítico ouça de maneira única. Isso torna os relatórios, muitas vezes, mais um reflexo das condições auditivas do avaliador do que uma verdade absoluta sobre o som analisado. Essa variação biológica compromete seriamente qualquer análise. Trata-se de um fato comprovado pela ciência, mas categoricamente negado pelo mercado por meio das justificativas mais frágeis, já que admitir isso traria consequências óbvias para quem precisa que esses testes pareçam infalíveis.

Por essa razão, o próprio Hi-Fi Planet deixou de fazer avaliações de equipamentos. Após compreender a fragilidade das condições envolvidas em um teste e as limitações naturais da audição humana, concluímos que nenhuma metodologia, por mais cuidadosa que fosse, seria capaz de driblar essas barreiras. Eu entendi que as minhas próprias avaliações, mesmo livres de interesses comerciais, poderiam estar também comprometidas. Não tenho o menor problema em reconhecer isso, pois o objetivo do Hi-Fi Planet sempre foi fazer a coisa certa, de forma honesta. O objetivo aqui sempre foi informar, e não fazer negócios.

Uma das minhas maiores preocupações no Hi-Fi Planet, e em outros espaços que já criei, sempre foi afastar qualquer possibilidade de interferência comercial, razão pela qual sempre proibimos anúncios e patrocinadores. Até mesmo aquelas janelas pop-up irritantes que o Google insere automaticamente nos sites são bloqueadas no nosso espaço.

No passado, eu costumava ler os reviews ao menos para conhecer as características técnicas dos aparelhos, ignorando os juízos de valor. Com o tempo, porém, percebi que até as informações descritivas continham erros grosseiros, provando mais uma vez que o compromisso com a informação era quase nulo. Cheguei a tomar conhecimento de uma apresentação de equipamento que sequer havia saído da caixa, ou seja, o aparelho não foi ligado e nem sequer foi visto pelo avaliador. As especificações foram simplesmente copiadas do site do fabricante, mas a unidade em questão, que depois veio parar em minhas mãos para teste, por ser uma peça de demonstração ainda em homologação, não continha um recurso eletrônico que havia sido detalhado, e pior, o recurso ainda foi “testado e aprovado” no artigo daquela publicação. Guardo os registros desse episódio até hoje, embora tenha optado por não divulgar os nomes envolvidos.
Em outro caso, uma sala de audição foi elogiada em uma matéria, mas equipamentos exibidos na foto haviam sido inseridos digitalmente, nunca estiveram de fato na sala..

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Hoje, com a inteligência artificial, manipular conteúdo ficou ainda mais fácil. Escrever uma avaliação com excelente qualidade editorial e num tom convincente depende apenas de um comando bem estruturado em um prompt.

Não se trata de generalização leviana, mas de uma realidade muito mais comum do que se imagina. Prova disso é uma discrepância gritante que vemos frequentemente, onde um avaliador em um país concede uma nota máxima a um produto, enquanto outro, em outro lugar, classifica o exato mesmo aparelho como medíocre. Isso fica ainda mais evidente quando os textos são publicados simultaneamente, impedindo que o segundo crítico alinhe seu discurso ao do primeiro.

Essa falta de ética não é exclusividade do universo do áudio e ocorre em muitos outros segmentos. Avaliadores são gratificados pelos elogios e, às vezes, recebem os próprios produtos como cortesia pela “ajudinha”. Já compilei dados curiosos de equipamentos testados que, semanas depois, apareciam em classificados de venda, obviamente sob o nome de terceiros que, após uma breve investigação, descobri fazerem parte da equipe da própria publicação.

Eu mesmo fui assediado diversas vezes por comerciantes e fabricantes para tecer comentários positivos em troca de vantagens. As abordagens eram sutis e, por vezes, até cômicas, com sugestões do tipo: “Se você avaliar bem o equipamento e percebermos que gostou dele, vamos deixá-lo de presente para você. Claro que, se não gostar, não vamos te dar algo ruim”. O que é isso senão uma tentativa clara de manipular a minha opinião?
Claro que essa estratégia nunca funcionou comigo.
Sempre defendi a honestidade e nunca precisei de retornos financeiros vindos deste hobby, já que a minha atuação na Engenharia e no Direito sempre supriu as minhas necessidades econômicas.

Por tudo isso, salvo raras e honrosas exceções, considero as ditas “avaliações de áudio imparciais” como uma das grandes mentiras do nosso hobby. Recomendo aos leitores muita cautela ao interpretar esses textos, principalmente aqueles recheados de adjetivos superlativos que enaltecem um produto como o novo “supra-sumo” do áudio, o qual, meses depois, é convenientemente esquecido ou superado por outro lançamento “revolucionário”.

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Há casos folclóricos em que o crítico menciona, pela centésima vez, que o ruído de fundo do seu sistema sofreu uma redução “gigantesca”, mesmo após já ter atingido o suposto “silêncio sepulcral” em testes anteriores. Uma análise puramente lógica nos levaria a crer que o sistema original dele deveria ser ensurdecedor, de tanto que o ruído diminui a cada novo acessório testado.

Brincadeiras à parte, fica o meu conselho: mantenham uma reserva com os juízos de valor emitidos sobre equipamentos e acessórios de áudio. E quando o assunto for cabos ou acessórios “mágicos”, tripliquem o ceticismo…

Audiofilo som high-end