Porque usar cabos curtos pode ser vantajoso para o seu sistema? Tudo o que se diz sobre isso é verdade?

Cabos curtos em sistemas de som Hi-End: menos é mais?
Em um sistema de áudio de alta fidelidade, é comum encontrarmos uma verdadeira coleção de cabos atrás do rack: interligações de diferentes comprimentos, extensões que sobraram, cabos excessivamente longos e, muitas vezes, vários metros de fio enrolados simplesmente porque o comprimento disponível era maior do que o necessário.
Será que isso é realmente preciso?
Quando falamos de cabos de interligação entre equipamentos de áudio, utilizar comprimentos menores pode ser uma escolha bastante racional. Não porque um cabo curto possua alguma propriedade “mágica” ou necessariamente produza um som melhor, mas porque todo cabo possui características elétricas e, quanto maior seu comprimento, maior tende a ser a influência dessas características no circuito.
Todo cabo é um componente elétrico
Um cabo de áudio não é simplesmente um pedaço de metal que transporta o sinal. Ele apresenta resistência, capacitância e indutância, ainda que seus valores sejam pequenos e muitas vezes até desprezíveis.
Em uma interligação convencional, temos, por exemplo:
DAC ou player ? pré-amplificador ? amplificador
essas características normalmente não representam um problema quando o cabo é adequadamente projetado e utilizado dentro das condições previstas pelos equipamentos. Entretanto, o comprimento influencia essas características.
Um cabo mais longo tende a apresentar maior capacitância total e maior resistência. Dependendo das características elétricas de saída do equipamento que está alimentando o cabo e das características de entrada do equipamento seguinte, os cabos podem interagir com o circuito. Isso não ocorre na forma como muitos “espertinhos” afirmam, sugerindo mudanças “da água para o vinho”. Elas são sutis, quando existem ou mesmo são perceptíveis.
Não existe uma vantagem técnica em utilizar três metros de cabo quando apenas cinquenta centímetros são necessários.
Isso também não significa que um cabo de um metro seja necessariamente melhor que um cabo de três metros. A questão é mais simples: não há motivo para acrescentar comprimento desnecessariamente.
Cabos curtos podem ser uma escolha inteligente
Imagine um rack no qual o player está instalado imediatamente ao lado do pré-amplificador. Se a distância entre os conectores dos dois aparelhos é de aproximadamente 30 cm, utilizar um cabo de 2 ou 3 metros significa simplesmente acrescentar material ao percurso do sinal sem necessidade. Um cabo de aproximadamente 50 cm, ou outro comprimento que permita uma instalação confortável, pode ser uma solução muito mais racional.
Além da influência negativa das características elétricas e dos riscos maiores de captação de interferências, há também uma vantagem prática: menos cabo significa menos material para organizar atrás do equipamento. E isso pode ser especialmente interessante em sistemas com vários componentes.

Mas cuidado com a ideia de que “quanto menor, melhor”
Aqui é importante evitar um dos exageros encontrados no universo audiófilo. Um cabo de 20 cm não é automaticamente superior a um cabo de 1 metro. Se ambos apresentam características elétricas adequadas, boa construção, blindagem apropriada e são utilizados entre equipamentos compatíveis, a simples redução do comprimento não garante uma diferença audível. Portanto, não devemos transformar uma boa prática de engenharia em uma espécie de regra absoluta:
Cabo curto não é necessariamente sinônimo de cabo melhor. É simplesmente um cabo que não possui comprimento desnecessário, o que pode trazer vantagens.
Essa diferença de conceito é importante.
O comprimento pode ser ainda mais relevante em determinadas situações
A influência do comprimento depende do tipo de conexão e dos equipamentos envolvidos. Em interligações de nível de linha, por exemplo, é interessante observar principalmente a relação entre impedância de saída, impedância de entrada e capacitância do cabo.
Equipamentos com baixa impedância de saída normalmente conseguem trabalhar com cabos relativamente longos sem dificuldades, assim como saídas balanceadas ficam menos sujeitas a problemas do que saídas desbalanceadas.
Já determinadas fontes ou circuitos com impedância de saída mais elevada podem ser mais sensíveis à capacitância apresentada pelo cabo. Por isso, antes de afirmar que determinado comprimento “soa melhor”, é muito mais útil conhecer as características elétricas dos equipamentos envolvidos.
E nos cabos de caixas acústicas?
Aqui a situação é diferente. Cabos de caixas acústicas transportam correntes muito maiores do que as encontradas nas interligações de sinal. Nesse caso, resistência e seção do condutor podem assumir uma importância maior. Se o amplificador está a poucos centímetros das caixas, não faz sentido utilizar uma quantidade enorme de cabo.
Por outro lado, se as caixas estão a vários metros do amplificador, simplesmente reduzir o comprimento pode não ser uma opção. Mais uma vez, a solução deve partir da instalação e das características elétricas, e não de uma regra audiófila universal.
Uma possibilidade interessante: fazer seus próprios cabos
Existe ainda uma vantagem pouco comentada quando se opta por interligações mais curtas.
Você pode simplesmente construir os seus próprios cabos.
E isso pode ser particularmente interessante para quem gosta de DIY. Imagine que você possui dois equipamentos separados por aproximadamente 45 cm.
Em vez de comprar um cabo comercial de interligação de 1,5 metro, pode-se adquirir o cabo por metro e conseguir uma interligação com o comprimento necessário.
Nesse caso, muitas vezes será necessário comprar apenas:
- o cabo;
- dois conectores RCA, XLR ou outro padrão utilizado;
- material para acabamento, se desejado.
E aqui surge uma vantagem econômica bastante interessante.

Você não precisa comprar um cabo pronto de três metros para utilizar apenas meio metro
Cabos de determinadas marcas podem ter preços elevados, principalmente quando recebem acabamento sofisticado, conectores especiais e uma apresentação voltada ao mercado Hi-End.
Se o objetivo é simplesmente construir uma interligação tecnicamente adequada, o DIY permite dimensionar exatamente o que será necessário.
Por exemplo, se quatro interligações de um sistema podem ser feitas com 50 cm cada, comprar cabo por metro e montar as conexões pode resultar em uma economia significativa em comparação com a aquisição de quatro cabos comerciais de 1 ou 1,5 metro.
E existe outra vantagem:
O comprimento passa a ser definido pelo seu sistema, e não pelo comprimento padrão encontrado na loja.
O cabo pode acompanhar exatamente as necessidades do seu equipamento
Essa é uma das coisas mais interessantes do DIY.
Imagine um rack em que os equipamentos estão posicionados assim:
DAC ? 40 cm ? pré-amplificador ? 50 cm ? amplificador
Você pode produzir os cabos exatamente para essa configuração. Não há necessidade de deixar um metro sobrando atrás do equipamento. Isso também evita aqueles grandes círculos de cabo escondidos atrás do rack que além de pouco estéticos, funcionam também como captadores de interferências.
Regra importante: É claro que não devemos fazer um cabo tão curto que dificulte a movimentação dos equipamentos. É sempre conveniente deixar alguma folga.
Um cabo de 40 cm para uma distância física de 40 cm, por exemplo, pode ser uma péssima ideia se não houver espaço para movimentar os aparelhos e não existir um acesso fácil aos conectores.
Óbvio que isso vai depender da montagem dos seus equipamentos. No meu caso, eu tenho amplo acesso aos painéis traseiros dos meus equipamentos sem precisar movimentá-los sequer um centímetro. Bom senso é a resposta.
O objetivo não é só fazer o cabo mais curto possível. É fazer o cabo mais curto que seja realmente conveniente.
E a qualidade dos conectores?
Ao construir um cabo, os conectores merecem atenção. Um bom conector deve proporcionar contato elétrico confiável, resistência mecânica adequada e boa compatibilidade com o equipamento.
Não é necessário transformar o conector em uma peça de joalheria, deixe isso para os fabricantes que usam esse recurso para cobrar desnecessariamente caro pelos seus cabos. Um conector corretamente construído, com bom contato e montagem adequada, pode realizar perfeitamente sua função.
O objetivo aqui é levar o sinal de um ponto a outro, não um sinal de áudio como muitos gostam de dizer, mas um sinal elétrico.
Isso também ajuda a colocar algumas afirmações do mercado em perspectiva.
Não é porque um conector custa dez vezes mais do que outro que o sistema necessariamente apresentará uma melhoria sonora correspondente.
Em uma conexão elétrica, um bom contato elétrico é muito mais importante do que uma aparência extravagante ou pagar por uma grife.
Uma das grandes mentiras do áudio é associar a aparência e o exagero ao resultado final. Um conector de qualidade de algumas dezenas de reais vai oferecer o mesmo resultado que um conector exotérico de centenas de dólares.

E a blindagem?
Para interligações de sinal, principalmente RCA não balanceadas, a blindagem é um aspecto importante.
Um cabo pode estar eletricamente muito bem construído, mas uma blindagem inadequada pode favorecer a captação de interferências eletromagnéticas, dependendo do ambiente.
Isso se torna particularmente relevante quando existem próximos aos cabos:
- fontes chaveadas;
- transformadores;
- cabos de alimentação;
- filtros de linha;
- computadores;
- roteadores;
- fontes digitais;
- outros equipamentos que possam gerar interferência.
Mais uma vez, um cabo curto pode ajudar, simplesmente porque reduz o percurso disponível para a captação de interferências, mas isso não significa que qualquer cabo curto será necessariamente silencioso.
A técnica de construção do cabo continua sendo importante, e não estou falando aqui de soluções bizarras e tecnologias alienígenas.
A multiplicação dos cabos
Outra solução interessante é reduzir o tamanho dos cabos que você já possui e utilizar as sobras para fazer novos cabos.
Veja só, você tem um cabo bom, de ótima qualidade e ele é bem mais comprido que o necessário. Você pode cortá-lo, tirar o conector do pedaço que sobrou e colocar naquele com o tamanho que escolheu, e usar a sobra para fazer mais um, dois ou mais cabos de qualidade, apenas instalando novos condutores. Você não terá mais somente um cabo de alto nível, mas vários.
Bons conectores não precisam ser caros. Você encontra excelentes opções no mercado por preços justos, e pode colocá-los nas suas sobras de cabos. Se você não tiver o conhecimento para instalar os conectores, peça para um amigo ou um técnico da sua confiança fazer isso para você. Mesmo que tenha você que pagar pelo recorte do cabo e instalação dos conectores, certamente gastará com isso uma fração do que gastaria com novos cabos.
Eu fiz isso em meu sistema, chegando a multiplicar um cabo por três.
Menos comprimento, menos desperdício
Existe ainda uma questão que não tem absolutamente nada de esotérica: a economia de material.
Se um sistema necessita de quatro cabos de 50 cm e compramos quatro cabos de 2 metros, estamos adquirindo aproximadamente quatro vezes mais cabo do que o necessário.
Em um sistema pequeno, isso talvez não tenha importância, mas em instalações maiores, com vários equipamentos, a diferença começa a ser significativa.
Nesse caso, reduzir o comprimento pode significar economizar dinheiro tanto na compra do cabo quanto na aquisição de cabos comerciais prontos.
Limitações
É possível nos depararmos com o seguinte questionamento: “Mas se eu cortar ou comprar cabos exatamente no tamanho que eu preciso, posso ficar limitado depois quando eu desejar mudá-lo de posição”.
Acredite: você não precisa viver fazendo mudanças de cabos. Esqueça os cabos, vá ouvir música.
Testes cegos e medições feitas pelo mundo todo já comprovaram que na grande maioria dos casos não existem diferenças nas trocas de cabos que são feitas frequentemente pelos audiófilos.
Essa cultura de troca de cabos para ajustar sistemas (uma grande mentira) ou para fazer melhorias de desempenho é algo que favorece toda uma cadeia de publicações, anunciantes, fabricantes e revendedores que faturam muito com as suas mentiras ou exageros.
O ajuste no comprimento dos cabos está na racionalidade
Há uma certa ironia no mundo do áudio Hi-End.
Frequentemente discutimos longamente sobre materiais de condutores, geometrias, dielétricos e conectores caríssimos, que na maioria das vezes nem altera o resultado final, enquanto atrás do rack encontramos metros de um cabo caro desnecessariamente enrolados.
Talvez seja mais interessante começar pelo básico:
O cabo possui as características elétricas adequadas?
O comprimento é necessário?
A blindagem é adequada à aplicação?
Os conectores fazem bom contato?
A conexão dos equipamentos é compatível com a interligação?
Se todas essas respostas forem positivas, provavelmente temos uma interligação bastante competente, e ela não precisa necessariamente custar uma fortuna e nem cair nas mentiras do universo audiófilo que fazem com que você gaste muito mais do que precisa.
Conclusão
Utilizar cabos de interligação mais curtos pode ser uma boa prática técnica e econômica, desde que o comprimento seja escolhido de maneira racional.
- Não existe motivo para acreditar que simplesmente cortar um cabo pela metade transformará um sistema comum em um sistema de referência.
- Da mesma forma, não há fundamento para afirmar que um cabo de três metros necessariamente prejudicará o som quando os equipamentos são perfeitamente capazes de trabalhar com essa distância.O bom senso está no meio dessas duas posições.
Use o comprimento necessário, evite excessos, escolha cabos eletricamente adequados e faça boas conexões.
E, para quem gosta de colocar a mão na massa, existe uma possibilidade ainda mais interessante: fabricar suas próprias interligações, comprando a metragem necessária e apenas os conectores apropriados.
Além de permitir ajustar o comprimento exatamente ao seu sistema, isso pode representar uma economia considerável.
No final, talvez a maior vantagem de um cabo curto não seja fazer o sistema “soar mais musical”. Talvez seja simplesmente não pagar por um metro de cabo que ficará enrolado atrás do rack.
E isso, pelo menos, é uma diferença que podemos medir.
