{"id":295,"date":"2007-11-04T15:06:40","date_gmt":"2007-11-04T18:06:40","guid":{"rendered":"http:\/\/hifiplanet.com.br\/blog\/?p=295"},"modified":"2026-06-24T10:56:21","modified_gmt":"2026-06-24T13:56:21","slug":"o-inconformismo-audiofilo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/o-inconformismo-audiofilo\/","title":{"rendered":"O inconformismo audi\u00f3filo"},"content":{"rendered":"<p>Como muitos audi\u00f3filos exageram na busca do som com qualidade. <!--more--><\/p>\n<p>Autor: Eduardo Martins<\/p>\n<p>Ouvir m\u00fasica deveria ser um exerc\u00edcio prazeroso. A can\u00e7\u00e3o deveria nos proporcionar sentimentos agrad\u00e1veis, nos afastando dos problemas e das preocupa\u00e7\u00f5es. Mas, essa n\u00e3o \u00e9 a verdade de todo o audi\u00f3filo. Alguns, na incans\u00e1vel busca da ut\u00f3pica perfei\u00e7\u00e3o, acabam fazendo de cada momento musical uma constante busca de detalhes t\u00e9cnicos que acabam por colocar a m\u00fasica no segundo plano.<\/p>\n<p>O termo alta-fidelidade em \u00e1udio, ou Hi-Fi, como \u00e9 comumente chamado, deveria ter sido mantido desta forma, ou seja, a audi\u00e7\u00e3o musical com alta fidelidade. Mas, surgiu o Hi-End, e o que deveria ser mais um degrau na qualidade da reprodu\u00e7\u00e3o musical, acabou virando sin\u00f4nimo de uma busca incans\u00e1vel pela reprodu\u00e7\u00e3o musical perfeita, como se isso pudesse realmente ser obtido com os equipamentos dispon\u00edveis hoje no mercado. Talvez um dia a tecnologia seja capaz de transformar qualquer sala residencial numa sala de concerto, em todos os seus detalhes.<\/p>\n<p>O audi\u00f3filo inconformado n\u00e3o admite que o seu equipamento eletr\u00f4nico possua qualquer detalhe que n\u00e3o reproduza fielmente o som ao vivo, como se o som ao vivo tamb\u00e9m pudesse ser perfeito. Salas de concertos possuem condi\u00e7\u00f5es ac\u00fasticas diferentes, e por isso s\u00e3o capazes de fazer soar diferente a mesma orquestra reproduzindo exatamente da mesma forma uma determinada m\u00fasica. O que dizer da ac\u00fastica de nossas casas, que mesmo tratadas artificialmente, n\u00e3o chegam sequer pr\u00f3ximo \u00e0 ac\u00fastica de uma sala de concerto. E como levar aquela apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo para um CD? O que dizer das grava\u00e7\u00f5es, incapazes de registrar com toda a exatid\u00e3o qualquer apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo?<\/p>\n<p>O audi\u00f3filo inconformado se justifica dizendo que n\u00e3o devemos abandonar a busca pela melhor reprodu\u00e7\u00e3o musical. Mas, para isso, bastaria comprar os melhores equipamentos do mundo e a busca estaria terminada, com um custo que facilmente ultrapassaria a cifra de 1 milh\u00e3o de d\u00f3lares. Fora isso, qualquer que seja o equipamento comprado, sempre existir\u00e1 algo melhor, e o audi\u00f3filo inconformado viver\u00e1 insatisfeito, buscando nos detalhes os argumentos necess\u00e1rios para um novo upgrade, que muitas vezes o manter\u00e1 ainda distante do que existe de melhor, e muito distante do ideal.<\/p>\n<p>Ele far\u00e1 in\u00fameras trocas de cabos, aparelhos e acess\u00f3rios de todo o tipo. Far\u00e1 dezenas de ajustes de posicionamento de caixas, testes com solu\u00e7\u00f5es ac\u00fasticas e tratamento el\u00e9trico. Ao final, sempre constatar\u00e1 que tem \u201calgo faltando\u201d. Nessa busca incans\u00e1vel, a m\u00fasica j\u00e1 ficou para segundo plano. A arte deu lugar ao inconformismo detalhista. As can\u00e7\u00f5es se tornaram meras ferramentas de an\u00e1lise, e cada audi\u00e7\u00e3o se tornar\u00e1 um trabalho cr\u00edtico, e n\u00e3o um momento de prazer. O inconformismo normal e saud\u00e1vel cede lugar para o inconformismo exagerado, inc\u00f4modo e doentio. O mundo do audi\u00f3filo se restringe aos seus equipamentos, e n\u00e3o mais a m\u00fasica. Todos os seus recursos passam a ser canalizados somente para seus upgrades, e os demais prazeres da vida lhe parecem menos importantes. Por\u00e9m, apesar de tudo isso, ele continua insatisfeito, j\u00e1 estudando o pr\u00f3ximo upgrade.<\/p>\n<p>Nenhum destes upgrades vai deix\u00e1-lo satisfeito. Ele nunca vai admitir que j\u00e1 chegou num ponto de alta fidelidade. Existe o a teoria do \u201cHi-End\u201d que lhe diz que \u00e9 poss\u00edvel ir mais longe. E a m\u00fasica? Bem, ela n\u00e3o \u00e9 perfeita pois \u201cainda falta algo\u201d.<\/p>\n<p>Podemos encontrar audi\u00f3filos que passaram a vida buscando o \u201ctopo do pinheiro\u201d, e confessam que est\u00e3o ainda muito distantes dele. Os fabricantes felizes agradecem essa ironia do destino.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel ir mais longe? Sempre \u00e9. Mas, a que custo? E n\u00e3o s\u00f3 financeiro, mas aqueles causados pelo inconformismo, pela ansiedade e pela falta de aproveitamento do prazer que a m\u00fasica pode oferecer quando a aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 voltada somente para ela, e n\u00e3o para aquele detalhe que parece ter se transformado num monstro destruidor de toda a arte musical.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel observar o fracasso dos testes cegos, mesmo aqueles feitos com especialistas de \u00e1udio. E as avalia\u00e7\u00f5es feitas em grupo? Estas s\u00e3o mais curiosas. Alguns percebem sutis diferen\u00e7as, outros n\u00e3o. Algumas vezes descobre-se que muitos deixam-se lavar pelas sugest\u00f5es de pre\u00e7o, marca, apar\u00eancia e at\u00e9 pelas palavras de algu\u00e9m. Estas diferen\u00e1s existem realmente? E, se existem, n\u00e3o fica claro que s\u00e3o t\u00e3o sutis que poderiam ser desprezadas para a aprecia\u00e7\u00e3o musical?<\/p>\n<p>O ponto \u00e9: at\u00e9 onde ir? Se n\u00e3o for estabelecido um limite, n\u00e3o existir\u00e1 um fim, e as vantagens conseguidas pelo custo que significaram poder\u00e3o n\u00e3o ter valido a pena, pois a reprodu\u00e7\u00e3o perfeita n\u00e3o foi atingida. Qual o exato momento onde devemos desviar nossa aten\u00e7\u00e3o do equipamento para a m\u00fasica? Quando devemos dizer: \u201cBasta !\u201d ? Essa pergunta s\u00f3 pode ser respondida individualmente. Cada um sabe o limite do quanto gastar. Quem possui condi\u00e7\u00f5es financeiras melhores poder\u00e1 comprar algo melhor, quem n\u00e3o as possui, poder\u00e1 se contentar com algo inferior, mas n\u00e3o ruim. Essa inferioridade \u00e9 tamb\u00e9m discut\u00edvel j\u00e1 que, como vimos, n\u00e3o existe um ponto claro do que \u00e9 melhor a partir de certos limites e dentro de determinadas faixas. Evidente que uma caixa ac\u00fastica de US$ 200.000 dever\u00e1 tocar melhor que outra de US$ 1.000. Mas, quanto exatamente tocar\u00e1 uma caixa de US$ 2.000 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 essa outra. Quanto custar\u00e1 esse sacrif\u00edcio? Sim, sacrif\u00edcio, pois sempre buscamos algo dentro de nossas possibilidades, e a partir da\u00ed ultrapassamos nossas capacidades, que muitas vezes nos custa muito caro. Porque algu\u00e9m compraria um equipamento de US$ 5.000 e vivesse depois de sucessivos upgrades at\u00e9 chegar a valores bem superiores e ainda assim insatisfeito com os resultados?<\/p>\n<p>Muitas vezes a vida nos brinda com algumas condi\u00e7\u00f5es financeiras favor\u00e1veis, ou a tecnologia nos tr\u00e1s algo melhor por pre\u00e7os mais acess\u00edveis. Este \u00e9 um upgrade coerente. Mas, \u00e9 coerente o simples fato de achar que um equipamento de alta fidelidade n\u00e3o \u00e9 suficiente e com bastante sacrif\u00edcio partir para outro que proporcionar\u00e1 uma melhora muitas vezes pouco percept\u00edvel, e logo depois descobrir que esse tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 bom?<\/p>\n<p>Numa analogia, muitos tiveram como seu primeiro carro um fusca, e certamente hoje possuem modelos bem mais potentes, bonitos, sofisticados e confort\u00e1veis. Mas, quem trocou um fusca por outro carro para ganhar um sutil ou quase impercept\u00edvel desempenho do motor, ou porque o novo modelo possu\u00eda uma muito pequena diferen\u00e7a de espa\u00e7o no porta-malas? Nessas trocas de modelos de autom\u00f3veis foi preciso experimentar v\u00e1rias vezes um carro na estrada para tentar sentir se existe ou n\u00e3o uma diferen\u00e7a de pot\u00eancia de motor. Ouve contradi\u00e7\u00e3o com um grupo de especialistas em carros para tentar identificar qual deles poderia ter o maior sil\u00eancio interno? Esses \u201cupgrades\u201d eram sempre evidentes, mesmo que fosse para \u201csaltar\u201d de um fusquinha 1300 para um modelo 1600. A diferen\u00e7a era not\u00e1vel. Ent\u00e3o porque achar que a troca de cabos de um sistema de \u00e1udio \u00e9 algo t\u00e3o necess\u00e1rio, misterioso e ao mesmo tempo com poucas ou nenhuma vantagem evidente?<\/p>\n<p>Parece que o exagero fica claro dessa forma.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria e o com\u00e9rcio (e tamb\u00e9m aqueles que de uma forma ou outra se beneficiam deles) induzem o desejo de mudan\u00e7a. Fazem parecer que o salto na utiliza\u00e7\u00e3o daquele componente representar\u00e1 muito mais do que ele realmente \u00e9 capaz de proporcionar. E muitas vezes o comprador vencido pela sugest\u00e3o acredita mesmo na melhora.<\/p>\n<p>Se observamos a falta de consenso que existe no mercado sobre o que \u00e9 Hi-End, sobre o que faz ou n\u00e3o faz diferen\u00e7a, sobre a pequena e question\u00e1vel vantagem obtida sobre cada componente, sobre o que \u00e9 alta fidelidade e o que \u00e9 a utopia da fidelidade absoluta, sobre o custo de cada novo upgrade e, principalmente, o que \u00e9 necess\u00e1rio para usufruir do prazer musical, encontraremos o limite da coer\u00eancia e do bom senso, e da insanidade audi\u00f3fila.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Como muitos audi\u00f3filos exageram na busca do som com qualidade.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":4960,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=295"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1243,"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295\/revisions\/1243"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4960"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}