{"id":295,"date":"2007-11-04T15:06:40","date_gmt":"2007-11-04T18:06:40","guid":{"rendered":"http:\/\/hifiplanet.com.br\/blog\/?p=295"},"modified":"2021-06-09T17:10:18","modified_gmt":"2021-06-09T20:10:18","slug":"o-inconformismo-audiofilo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/o-inconformismo-audiofilo\/","title":{"rendered":"O inconformismo audi\u00f3filo"},"content":{"rendered":"<p>Como muitos audi\u00f3filos exageram na busca do som com qualidade. <!--more--><\/p>\n<p>Autor: Eduardo Martins<\/p>\n<p>Ouvir m\u00fasica deveria ser um exerc\u00edcio prazeroso. A can\u00e7\u00e3o deveria  nos proporcionar sentimentos agrad\u00e1veis, nos afastando dos problemas e  das preocupa\u00e7\u00f5es. Mas, essa n\u00e3o \u00e9 a verdade de todo o audi\u00f3filo. Alguns,  na incans\u00e1vel busca da ut\u00f3pica perfei\u00e7\u00e3o, acabam fazendo de cada  momento musical uma constante busca de detalhes t\u00e9cnicos que acabam por  colocar a m\u00fasica no segundo plano.<\/p>\n<p>O termo alta-fidelidade em \u00e1udio, ou Hi-Fi, como \u00e9 comumente  chamado, deveria ter sido mantido desta forma, ou seja, a audi\u00e7\u00e3o  musical com alta fidelidade. Mas, surgiu o Hi-End, e o que deveria ser  mais um degrau na qualidade da reprodu\u00e7\u00e3o musical, acabou virando  sin\u00f4nimo de uma busca incans\u00e1vel pela reprodu\u00e7\u00e3o musical perfeita, como  se isso pudesse realmente ser obtido com os equipamentos dispon\u00edveis  hoje no mercado. Talvez um dia a tecnologia seja capaz de transformar  qualquer sala residencial numa sala de concerto, em todos os seus  detalhes.<\/p>\n<p>O audi\u00f3filo inconformado n\u00e3o admite que o seu equipamento eletr\u00f4nico  possua qualquer detalhe que n\u00e3o reproduza fielmente o som ao vivo, como  se o som ao vivo tamb\u00e9m pudesse ser perfeito. Salas de concertos  possuem condi\u00e7\u00f5es ac\u00fasticas diferentes, e por isso s\u00e3o capazes de fazer  soar diferente a mesma orquestra reproduzindo exatamente da mesma forma  uma determinada m\u00fasica. O que dizer da ac\u00fastica de nossas casas, que  mesmo tratadas artificialmente, n\u00e3o chegam sequer pr\u00f3ximo \u00e0 ac\u00fastica de  uma sala de concerto. E como levar aquela apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo para um  CD? O que dizer das grava\u00e7\u00f5es, incapazes de registrar com toda a  exatid\u00e3o qualquer apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo?<\/p>\n<p>O audi\u00f3filo inconformado se justifica dizendo que n\u00e3o devemos  abandonar a busca pela melhor reprodu\u00e7\u00e3o musical. Mas, para isso,  bastaria comprar os melhores equipamentos do mundo e a busca estaria  terminada, com um custo que facilmente ultrapassaria a cifra de 1 milh\u00e3o  de d\u00f3lares. Fora isso, qualquer que seja o equipamento comprado, sempre  existir\u00e1 algo melhor, e o audi\u00f3filo inconformado viver\u00e1 insatisfeito,  buscando nos detalhes os argumentos necess\u00e1rios para um novo upgrade,  que muitas vezes o manter\u00e1 ainda distante do que existe de melhor, e  muito distante do ideal.<\/p>\n<p>Ele far\u00e1 in\u00fameras trocas de cabos, aparelhos e acess\u00f3rios de todo o  tipo. Far\u00e1 dezenas de ajustes de posicionamento de caixas, testes com  solu\u00e7\u00f5es ac\u00fasticas e tratamento el\u00e9trico. Ao final, sempre constatar\u00e1  que tem \u201calgo faltando\u201d. Nessa busca incans\u00e1vel, a m\u00fasica j\u00e1 ficou para  segundo plano. A arte deu lugar ao inconformismo detalhista. As can\u00e7\u00f5es  se tornaram meras ferramentas de an\u00e1lise, e cada audi\u00e7\u00e3o se tornar\u00e1 um  trabalho cr\u00edtico, e n\u00e3o um momento de prazer. O inconformismo normal e  saud\u00e1vel cede lugar para o inconformismo exagerado, inc\u00f4modo e doentio. O  mundo do audi\u00f3filo se restringe aos seus equipamentos, e n\u00e3o mais a  m\u00fasica. Todos os seus recursos passam a ser canalizados somente para  seus upgrades, e os demais prazeres da vida lhe parecem menos  importantes. Por\u00e9m, apesar de tudo isso, ele continua insatisfeito, j\u00e1  estudando o pr\u00f3ximo upgrade.<\/p>\n<p>Nenhum destes upgrades vai deix\u00e1-lo satisfeito. Ele nunca vai  admitir que j\u00e1 chegou num ponto de alta fidelidade. Existe o a teoria do  \u201cHi-End\u201d que lhe diz que \u00e9 poss\u00edvel ir mais longe. E a m\u00fasica? Bem, ela  n\u00e3o \u00e9 perfeita pois \u201cainda falta algo\u201d.<\/p>\n<p>Podemos encontrar audi\u00f3filos que passaram a vida buscando o \u201ctopo do  pinheiro\u201d, e confessam que est\u00e3o ainda muito distantes dele. Os  fabricantes felizes agradecem essa ironia do destino.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel ir mais longe? Sempre \u00e9. Mas, a que custo? E n\u00e3o s\u00f3  financeiro, mas aqueles causados pelo inconformismo, pela ansiedade e  pela falta de aproveitamento do prazer que a m\u00fasica pode oferecer quando  a aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 voltada somente para ela, e n\u00e3o para aquele detalhe que  parece ter se transformado num monstro destruidor de toda a arte  musical.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel observar o fracasso dos testes cegos, mesmo aqueles  feitos com especialistas de \u00e1udio. E as avalia\u00e7\u00f5es feitas em grupo?  Estas s\u00e3o mais curiosas. Alguns percebem sutis diferen\u00e7as, outros n\u00e3o.  Algumas vezes descobre-se que muitos deixam-se lavar pelas sugest\u00f5es de  pre\u00e7o, marca, apar\u00eancia e at\u00e9 pelas palavras de algu\u00e9m. Estas diferen\u00e1s  existem realmente? E, se existem, n\u00e3o fica claro que s\u00e3o t\u00e3o sutis que  poderiam ser desprezadas para a aprecia\u00e7\u00e3o musical?<\/p>\n<p>O ponto \u00e9: at\u00e9 onde ir? Se n\u00e3o for estabelecido um limite, n\u00e3o  existir\u00e1 um fim, e as vantagens conseguidas pelo custo que significaram  poder\u00e3o n\u00e3o ter valido a pena, pois a reprodu\u00e7\u00e3o perfeita n\u00e3o foi  atingida. Qual o exato momento onde devemos desviar nossa aten\u00e7\u00e3o do  equipamento para a m\u00fasica? Quando devemos dizer: \u201cBasta !\u201d ? Essa  pergunta s\u00f3 pode ser respondida individualmente. Cada um sabe o limite  do quanto gastar. Quem possui condi\u00e7\u00f5es financeiras melhores poder\u00e1  comprar algo melhor, quem n\u00e3o as possui, poder\u00e1 se contentar com algo  inferior, mas n\u00e3o ruim. Essa inferioridade \u00e9 tamb\u00e9m discut\u00edvel j\u00e1 que,  como vimos, n\u00e3o existe um ponto claro do que \u00e9 melhor a partir de certos  limites e dentro de determinadas faixas. Evidente que uma caixa  ac\u00fastica de US$ 200.000 dever\u00e1 tocar melhor que outra de US$ 1.000. Mas,  quanto exatamente tocar\u00e1 uma caixa de US$ 2.000 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 essa  outra. Quanto custar\u00e1 esse sacrif\u00edcio? Sim, sacrif\u00edcio, pois sempre  buscamos algo dentro de nossas possibilidades, e a partir da\u00ed  ultrapassamos nossas capacidades, que muitas vezes nos custa muito caro.  Porque algu\u00e9m compraria um equipamento de US$ 5.000 e vivesse depois de  sucessivos upgrades at\u00e9 chegar a valores bem superiores e ainda assim  insatisfeito com os resultados?<\/p>\n<p>Muitas vezes a vida nos brinda com algumas condi\u00e7\u00f5es financeiras  favor\u00e1veis, ou a tecnologia nos tr\u00e1s algo melhor por pre\u00e7os mais  acess\u00edveis. Este \u00e9 um upgrade coerente. Mas, \u00e9 coerente o simples fato  de achar que um equipamento de alta fidelidade n\u00e3o \u00e9 suficiente e com  bastante sacrif\u00edcio partir para outro que proporcionar\u00e1 uma melhora  muitas vezes pouco percept\u00edvel, e logo depois descobrir que esse tamb\u00e9m  n\u00e3o \u00e9 bom?<\/p>\n<p>Numa analogia, muitos tiveram como seu primeiro carro um fusca, e  certamente hoje possuem modelos bem mais potentes, bonitos, sofisticados  e confort\u00e1veis. Mas, quem trocou um fusca por outro carro para ganhar  um sutil ou quase impercept\u00edvel desempenho do motor, ou porque o novo  modelo possu\u00eda uma muito pequena diferen\u00e7a de espa\u00e7o no porta-malas?  Nessas trocas de modelos de autom\u00f3veis foi preciso experimentar v\u00e1rias  vezes um carro na estrada para tentar sentir se existe ou n\u00e3o uma  diferen\u00e7a de pot\u00eancia de motor. Ouve contradi\u00e7\u00e3o com um grupo de  especialistas em carros para tentar identificar qual deles poderia ter o  maior sil\u00eancio interno? Esses \u201cupgrades\u201d eram sempre evidentes, mesmo  que fosse para \u201csaltar\u201d de um fusquinha 1300 para um modelo 1600. A  diferen\u00e7a era not\u00e1vel. Ent\u00e3o porque achar que a troca de cabos de um  sistema de \u00e1udio \u00e9 algo t\u00e3o necess\u00e1rio, misterioso e ao mesmo tempo com  poucas ou nenhuma vantagem evidente?<\/p>\n<p>Parece que o exagero fica claro dessa forma.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria e o com\u00e9rcio (e tamb\u00e9m aqueles que de uma forma ou outra  se beneficiam deles) induzem o desejo de mudan\u00e7a. Fazem parecer que o  salto na utiliza\u00e7\u00e3o daquele componente representar\u00e1 muito mais do que  ele realmente \u00e9 capaz de proporcionar. E muitas vezes o comprador  vencido pela sugest\u00e3o acredita mesmo na melhora.<\/p>\n<p>Se observamos a falta de consenso que existe no mercado sobre o que \u00e9  Hi-End, sobre o que faz ou n\u00e3o faz diferen\u00e7a, sobre a pequena e  question\u00e1vel vantagem obtida sobre cada componente, sobre o que \u00e9 alta  fidelidade e o que \u00e9 a utopia da fidelidade absoluta, sobre o custo de  cada novo upgrade e, principalmente, o que \u00e9 necess\u00e1rio para usufruir do  prazer musical, encontraremos o limite da coer\u00eancia e do bom senso, e  da insanidade audi\u00f3fila.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Como muitos audi\u00f3filos exageram na busca do som com qualidade.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=295"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1243,"href":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295\/revisions\/1243"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.hifiplanet.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}